Lamparinas, luz de velas... São lanternas japonesas! Me parecem ser estrelas, com certeza são eternas!
1 de abril de 2011
Então é assim que os poetas deliram?
Vou rasgar o sol com meus braços
E dali, puxar pela fenda dos elementos
Parindo do hélio, inteiro um planeta
Ou do hidrogênio
Ah, que hilário!!! Então é assim que os poetas deliram?
Vou recortar minha retina no gelo...
Congelar a pupila na imagem maravilhosa
Que são seu sustento, ou suas pernas
Pilastras romanas enrubescidas...
Colunas gregas, grinaldas agradecidas...
E na descida do Olimpo, salpicar de oliva
Sua pele, meu labirinto...
Ah, então descobri como fazem esses poetas!!
Tão divertido!
Mas que feio, meninos!!! Não exagerem!
Elas são lindas, eu sei, são nossas mulheres!
Mas elas percebem os superlativos, recuem!
Também queria ser desse tipo
de atleta gramático... Conquistar mil olhares!
Huumm, que delicia...
Mas vejam meus membros, não sou um atleta
Olímpico!
Imaginem! Quebrar tantos recordes!
Nunca... Bem que eu queria! Mas não me esforço!
Nem meu biótipo permite!
Ah, mas como desejaria estar ali pelo Nobel da literatura
Da química ou da medicina!
Mas meu raciocínio tortura e se inclina
Por um caminho mais largo, quem sabe, uma avenida!
Saramago que me abençoe!
Definitivamente, não faço parte do círculo!
E as musas, de mim gargalham!
E me divirto! Esse mundo é mesmo engraçado!
Não sirvo para soldado!
Sei que não danço em baladas...
Nem tremo de raiva com injustiças!
Mas para aquela ali meio escondida
Aquela, a que escolhi... meio desajeitada!
Ali na casinha de palha... ela descansa...
E o poema que trago...
Quase cerveja de trigo...
O mais bonito, é sempre da mesma matéria
Sussurradíssima ao pé do ouvido!
(recordem dos superlativos)
Compõe-se de uma só frase!
Ecoada e divina,
Leva-nos a loucura...
Basta: Eu te amo!
Ali eu deliro... e ela se vira... cai a noite
Me beija...
e ofegantes nos abraçamos!
Eu te amo mesmo... que coisa esquisita!!
Deixa escorrer a água querido!
Onde esta a menina
que escrevia de lágrimas?
Se bem me lembro
Era divino o poema!
Dizia: lágrimas não choradas
Bem pronto, correm pro outro lado...
Ou seja... pra dentro da alma...
Enraizavam com força, se enterravam
no fundo de um poço
onde um caroço crescia...
lento e desesperado!
Os membros se retorciam
As lágrimas formavam um lago.
Profundo o desgosto
De ali, ser assim afogado!
Onde esta a menina?
Que recitou tais palavras?
Coitada! Não sei seu destino...
Imagino que no abismo do lago,
Ela repouse bem breve
Em suas margens,
dali entoando a cantiga
Que diz bem suave:
Deixa escorrer a água querido!
Para o outro lado...
Para o outro lado, menino!
Para não inundar sua alma
Nessa lagoa de mágoa...
Oceano salgado e solitário!
Cuidado!
14 de março de 2011
O labirinto de calcário
Ela enverga o corpo assim, como num arco
De cordas tesas da mirada no objeto
Arrebentadas quase inteiras e por completo
Sua flecha ela dispara, sendo certeira
A coluna arrepia como uma harpa
Nos arames ela vibra em harmonia
E nos ossos da bacia se percebe
O labirinto de calcário como num mapa
Ela navega como um barco no oceano
E nas marés vai descobrindo os segredos
Das cavernas submersas e dos rochedos
E das cantigas mais antigas do piano...
Numa nau ela passeia pela praia e me atravessa
Na caravela é a carranca da sereia, às avessas
Traz boa sorte, e meu túmulo é da matéria da areia, de silício
Dos mais finos que o vento sempre leva, e recomeço!
Iemanjá vai invejando-lhe a beleza, mas joga flores
Os orixás a jogar búzios na certeza
Que essa mulher, sendo a própria natureza
Possui marinho um reino, o domínio das espécies...
E meu carinho...
Minha Pátria vai inteira para a festa...
Tanta delícia a recobrir meus devaneios...
Um vento fraco, como brisa bem de leve
Traz o perfume de su’alma em meu sorriso
Ela é sereia, a retornar de Atlântida perdida!
Venha para a terra, ergue outro reino no terreiro!
Com suas pernas verdadeiras, não das escamas fictícias!
Ela é Patrícia... minha pátria
feiticeira... minha carícia.
Volta para a cama!
13 de março de 2011
Eu carrego em meu peito um elefante
Eu carrego em meus braços a criança
Nos dois olhos, vem um mar de desespero
A esperança retorcida do desejo
Sente fome. Não de arte (ainda), de comida mesmo,
desde a infância um cão lhe rouba a carne.
Vai assim a esperança ao enterro.
Vai de terno bem puído e resumida
Sem descanso
Eu carrego nos sapatos escondida
a alavanca, o gatilho, o disparo, o despreparo
Eu carrego em meu peito um elefante
Que esmaga o homem jovem e a debutante
Faz as malas toda vez que bate o vento
No moinho põe a alma descontente
Faz um frio bem lá dentro, tão constante
Como as ondas ou as pedras de diamante
Faz um rio de lamentos, se derrama
lamacento!
E meu lenço de poeta,
encharcado volta já para meu bolso
Eu me deito, amanha é diferente!
E meu lenço de poeta,
encharcado volta já para meu bolso
Eu me deito, amanha é diferente!
À DERIVA
Vou soltar um pouco as rédeas,
Confiar a meu cavalo, meu caminho.
É eterna a nebllina que me envolve
Minhas pernas sao tranquilas e deslizam
Pela relva e pelo instinto, sem mistério!
Ver que os deuses jogam cartas
E os ciganos, dos sinais não me revelem
nem me avisem o que os astros em seus ciclos,
profetizam...
Afrouxar maneiro as velas e de leve
Vou mirar pela escotilha percebendo
Qual o mar me navegou durante a noite
e onde ancora já bem tarde, meu navio
Descobrir de novo a praia... e as sereias
Que florestas me devolvem!
Que deserto se reserva a meu destino!
Vou soltar assim, de leve, as rédeas...
A maré vai definir meu desafio!
E respostas não procuro. Tenho alma e
O caráter é quem molda meu futuro!
Aquieta o Realejo e Seu Macaco!
Vou a praça meu amigos! Não me calem!
Desta vez é diferente. Vou gritar a todo povo
Com vontade. Que sou jovem e deliro com poemas!
Sou bonito bem lá dentro, não perfeito
Mas amável e contente Dom Quixote!
Vou a praça meus amigos. Não duvidem!
Acordar os passarinhos logo cedo, com migalhas
E cantigas e assovios, vou ali tocar o sino da capela
No coreto encostar minhas costelas, vou deitar
E decifrar mais um soneto,
ou quem sabe, serenata para as estrelas.
Vou a praça meus amigos. Convocado pelos anjos,
Não gargalhem! Mas é claro que retumba em meu ouvido
Uma trombeta, e me chama pelo nome como bomba
Estalando na usina japonesa. Não escutam o universo?
Bueno, eu escuto e me despeço. Me convocam!
Eu alisto as legiões de bons profetas
Vou de fato, de mãos dadas à paixão Roberspiana!
Laços feitos com a jovem Julieta
Vou trotando o Corcel Negro, pela praia!
Flutuando como pássaro ligeiro, que alegria!
.
.
.
Ao passar o general, meus quatro dedos
lhe concedem continência com respeito!
E a praça me aparece tão distante...
e o povo me parece satisfeito
com as pérolas atiradas por palhaços...
que adormeço de cansaço antes do sono
Operário de palavras que escreve,
torturado na masmorra como escravo.
Que tristeza!
Sim senhor! Ao trabalho, aperto um parafuso!
Me desculpe!
Desaparece a praça no infinito do desejo!
Cala-te macaco!
Sufoco uma vez mais o realejo!
Não me peçam gentileza! Vou dar murros!
Vou a guerra camaradas! Não à praça!
Batalhar por meus direitos e justiça!
Não me impeçam! Que delírio!
Assim sei que me diriam... que impropério!
A criança que me espera no barraco
Sente fome e desejos e não duvida
Que um dia o império se despeça!
Vou a guerra camaradas! Não me julguem
Estar louco! Não maltratem com descrenças
A esperança... Quero um jarro d'água
Para acalmar a sede
de vingança, antes que seja tarde.
Não é nada comparado a decalitros
De suor que derramo na fornalha
de meu rosto todo dia, como rio
a correr para os esgotos
Vou a guerra meus queridos companheiros...
Não me peçam gentileza! Vou dar murros
Com vontade e sem destreza, vou rebelde
Arrebentar a jugular do general
Que devora minha carne. Sou selvagem!
Eu entalho uma bandeira no granito, sou gitano!
Digo mais! Que a greve já é coisa do passado!
De tão grave que se encontram os sindicatos
Como mortos, secretários, cemitérios!
Da greve fiz a guerra
De pedra fiz o poema!
A moeda é como flor
que desaba na calçada
Troco as fraldas da criança
São as regras garimpeiro
De esmeraldas no bueiro.
E o general... se afoga em nossa hemácia
Que delírio, vê-lo assim, deselegante!
Despenteado!
.
.
.
Passa o tanque e os soldados enlatados...
Mas... Humpf... a guerra me parece solitária...
E a vontade dos colegas me parece tão domada!
Já não são mais camaradas... São sisudos!
Adormecem entorpecidos pelas drogas... Que absurdo!
Violentam as esposas e despistam a tristeza com o jogo!
Depositam seus desejos nos domingos!
Vou pra cama meus amigos...
E passa o general com mais medalhas tinindo
no peito...
Em meu ombro, toda a culpa de ser fraco,
E dormir a cada dia mais insosso!
Choramingo de revolta, tremo inteiro...
A gangrena comungando sua derrota!
Chega o dia general!
Como eu vi os faraós se agitarem
Quando o povo ergueu bem alto
as bandeiras lá no Egito!
Vou dormir vasculhando a história
Maquinar mais um esquema junto às massas
Vou bordar outra estrela no uniforme
E passear pelos escombros da hecatombe!
Vou deitar mordendo os dentes nos entulhos,
e no partido, organizar outra investida ao território!
E o realejo vai soar tão excitado
Que os poemas vão brotar no azulejo
Chega o dia general!
Chega o dia!
Ah! Eu sei que chega!
Como eu vi se agitarem no Egito!
7 de março de 2011
Minha mãe fez uma boneca
Minha mãe foi para a cozinha
Eu sabia que de lá vinha magia
- Ah! Como aquilo me diverte até hoje!
Com as mãos cheias de massa
Ergue ali outra boneca
Ainda mais bonita que as outras
como sempre...
Na oficina, se atrapalha nos arames
Feliz coelha que dança no espinheiro
Se diverte no palheiro e na fumaça
Embolada nos balaios e nos cestos
Sorri e sua, a franja lhe atrapalha
Minha mãe vai para a rua
Animada volta sempre com idéias
Inspiradas nas corujas e estrelas
Minha mãe volta da praça
Maquiada de folhagens e fuligem
De papel, cola, coração esfarelado
encaixa a armação sobre o balaio
Põe recheio...
Cai um braço, amanhece um pescoço retorcido
Outra noite a ser perdida
Outra massa a ser tentada
Minha mãe vai para o sonho
E dali vai registrando outras receitas
Eu sou filho admirado
E observo o trabalho ser criado
Minha mãe faz um remédio
Que me alegra o dia inteiro
Que também lhe cura a alma
Já tem a textura exata da pele crespa que deseja ao objeto
Agora ela prepara a tinta, para pintar o sujeito
Minha mãe faz uma boneca
Para meu coração de filho
Premia delicada, orgulhosa satisfeita
Traz a festa inteira para dentro de meu peito
Depois ela vai embora... Na varanda, para sempre
Descansa a boneca da receita
Como musa a pairar sobre meus sonhos
Como madre a voltar para a cozinha
Como fada e feiticeira a olhar pelo seus filhos
Sussurrando a hora certa
Desviando da armadilha
Minha mãe fez uma boneca...
Costurando toda a alma da família
Que me serve de instinto e de carinho
Que me guia para sempre no caminho
De ser homem recheado de ternura
Caminhando nas aventuras da vida...
Obrigado para sempre Madrecita!
Também sou como Pinocchio
Criei vida, e fugi de meu Gepetto!
Um dia eu volto...
Um dia eu volto...
Ao final, nunca nos fomos!
(Poema escrito inteiro sem corrigir uma palavra, vindo do jeito que veio... da maneira que minha mãe faz as bonecas... Poema feito para las manos de mi madre, que me cuidam para sempre!)
Obrigado Madrecita Linda!
Pode ser que depois eu corrija alguma coisa!
4 de março de 2011
O verso do não amor
Não te amo, é certo!
Pena que não acreditas e
Insistes em algo que não existe
É armadilha, cuidado!
Não amo nem me apaixono...
Me aproximo como lobo sem matilha
pelo faro e feromônio, apenas
Dessa maneira não sofres
Da mesma maneira não sofro
Domina o seu demônio
Capo o capeta confuso
É óbvio que não te amo
Desejo apenas de carne,
Por necessidade de homem
Por delicadeza respeito
As regras do galanteio
Floreio a cama e canto
Definitivamente te esqueço
Como a carteira na mesa
Por ser moça da igreja
Não amo por serdes burguesa
Assim que adormeço
Após o orgasmo e o gozo
Outros sonhos me tropeçam
Embaraçam meus esquemas
Não te amo pois é caro
O amor de um homem cansado
Não o compras no mercado
Nem com vasos de cerveja
A certeza é que não amo!
Acertado!
Não te amo, pois sou breve
E leve em meus sentimentos
Como bóia no naufrágio
Como a brisa
Como erva no cigarro
Como fezes
Como fazem os capitalistas
Não possuis meu afeto
Apenas o meu desejo
Sou concreto
Miro meu objeto
Domino o animal no cio
Não te amo, me protejo
Na concha da ostra sem pérola
No estojo do caramujo
Na colcha de cama vazia
Não te amo, porque não quero
Ter ao meu lado dura tortura
Eterna e noturna
Não te amo, está decidido!
Aborto o sonho, ejeto!
Rejeito o projeto
São meus direitos!
Desmancho o castelo
De areia
Sou claro
Recolho o poema
Visto o pijama...
Já é tarde, melhor ir pra casa!
Gritas bem alto na rua de pedra:
- COVARDE!
Que importa! Já é mesmo bem tarde!
Abaixo segue o comentário de uma grande amiga... Um dia acho que a respondo com muita gentileza e atenção, mas ainda não é o momento para isso! Obrigado pelas palavras...
Hoje li seu poema do não amor.
Lindo...mas tão triste...
Tão triste um homem tão jovem, apesar de tão vivido, ser tão duro consigo mesmo.
Triste um homem que, pelo pouco que sei, adora entrar em lutas por grandes causas e,
Justamente dessa, corre armado até os dentes.
Que tanto não amor é esse?
Questiono apenas por nunca ter visto isso tão explicitamente.
Admiro sua coragem de expor uma ferida tão aberta.
Pode ser que eu não esteja certa, mas o nome disso não é “não amor”,
O nome disso, com todo o perdão da palavra, é cagaço.
E entendo. Eu também já senti tudo isso. Já escrevi sobre isso. Mas nunca contei. Mal contava pra mim...escrevia e não lia nunca mais.
No que você acredita? Numa vida sozinho? Com o seu pijama e a colcha vazia da tua cama?
Além do seu corpo de homem, sua alma não reclama?
E não se trata de coração, pois você poderia me dizer: melhor assim, o amor é que pode trazer dor.
E o vazio? Não te incomoda não?
Não lhe falta corda pro violão?
E a falta de alguém pra compartilhar, você jura que nunca lhe tira o ar?
Jura que você não esvazia com tanto gozo desse corpo de homem cansado, sem ter ao menos o cuidado de talvez poder amar aquela mulher não como um objeto que você gosta, mas como a perola única da concha de uma ostra?
E depois de tantos orgasmos, que sonhos são esses que te tropeçam?
Com o que você sonha?
Com um grande amor retribuído num lindo poema?
É isso que embaraça o seu esquema?
Não que você precise, mas me convença da dura tortura de ter um amor do seu lado.
É seu direito querer acreditar nisso. Fingir que acredita.
Mas uma hora o coração grita.
E quando isso acontece, não há poema que se recolha...
não há essa sua escolha medrosa do não amor.
Seja como for
desde já, lhe digo...
Leve, nada tem a ver com breve,
meu caro amigo...
Soldado da Coluna Prestes
A Coluna Prestes foi um movimento militar com adesão de populares revoltosos, liderado por Luis Carlos Prestes na década de 20. Em 2,5 anos de marchas, percorreu mais de 25.000 km pelo interior do Brasil, lutando contra as tropas oficiais e afugentando o próprio cangaceiro Lampião de seu caminho, na ocasião o governo deu um titulo de comandante do exército brasileiro, para que este derrotasse a Coluna. Lampião sabiamente, pegou todas as armas que podia, e não enfrentou Prestes, considerando que este não era seu inimigo e nem tinha forças suficientes para gastar.
Outros fatos curiosos: Muitos soldados da Coluna, combatiam nus, porque andavam em estado de miséria absoluta...
O povo das localidades por onde a coluna passava doava alimentos, roupas, armas, e os consideravam santos e milagrosos.
Diz-se que Prestes tinha poderes santos, passavam por rios sem pontes, levitando...
Quando a Coluna precisava de carne, pediam um boi aos agricultores e assinavam uma nota promissoria a ser ressarcida depois que conquistassem o poder, até hoje agricultores guardam essas notas...
Enfim, eram os tempos das grandes fogueiras...
Para Luis Carlos Pinheiro Machado, um mestre!
Fui soldado ao cavalo da Esperança.
Trancado nos dentes, arrebentado e ferido
Lembro ainda de um homem santo,
Milagres em acres mal conhecidos
Comandando na veia dos braços, aos farrapos e desnudo...
Exaurido, consumido, constirpado!
No sertão Canudo herda o cajado da liderança...
Sertanejo andaluz, cabano ginete... Ainda sem barba
Fui eu seu soldado trazendo as marcas sem cicatrizes
Abertas pra sempre, como uma cratera. Veja!
Emboscadas militares tombam ao nó górdio da inteligencia
E o sabre sadio bebendo aguardente... Na sagacidade de um profeta!
Toque a ferida! Rasgue de novo meu peito no bacamarte
Tenho-as guardadas... como medalhas
Enraivecido tenho orgulhoso, meus calos do membro aleijado...
Que importa a corcunda!
Fui eu soldado da Coluna andarilha,
Desfigurado e roto em pelotão caminhava...
O povo aspergido ao continente, vibravam ao som do trote de nossos passos
O berro das chamas me hipnotizam...
Somavam-se à tropa em transe... mais um grosso caldo...
Em eco mais retalhado num instinto de justiça!
Mais um sisal na trança... ferve-se a praga... mais uma corda se alarga!
Escreve um cordel, amansa um quintal
Primavera rebrota em nosso jardim...
A chuva nos brinda... gotejos de sangue, de água e balas em mim...
De lama, de estrada, rios sem pontes... levitam em mágica
Eu fui um soldado... sigo as ordens ainda de meu general
semear os sonhos com disciplina...
Eu fui um soldado... militar, é certo! Na noite das grandes fogueiras dancei!
Eu fui um soldado... deitei na Bolívia estradas de ferro inglesas e sinuosas...
Meu engenheiro, meu pai... Sigo adiante sem os diamantes...
Carrego ainda as dinamites... pavios bem curtos, navios distantes
Um tal de Pinheiro segue seus passos...
Um tal de Machado lhe segue aliado...
Sou jovem marujo...
Recordo das flores no pasto!
Nas mãos de um velho soldado, toco o passado...
Agarrado à guerrilhas, tocamos Zapata...
No passo das marchas, o general se levanta...
Outro exército se ergue... Eterna onda que nos persegue...
Soldado sanguinário no espelho
mira o olhar jubilado...
Segue em meu peito entrincheirada a faísca pulsante...
Sigo no estábulo, com Rocinante...
Um rinoceronte cavalga meu peito...
Conheci um velho carabineiro
da Coluna Mágica
Beijei seus olhos... limpei-lhe a fronte!
Semeio em meu pátio seus ensinamentos...
Seremos soldados, serenos e dignamente!
Luis Carlos Prestes saiu conhecido do conflito como o “CAVALEIRO DA ESPERANÇA”
3 de março de 2011
Reine em mim Realidade!
Reine em mim Realidade!
Domine-me Hercúlea!
Copule-me!
E quando me espreme,
Exalo um poema.
É apenas minh’alma
Que se exprime...
Num vácuo de voz aflita
Um leve suspiro escrito
Respiro-te realidade...
Persegue-me o perfume da prova
dos fatos
Oh Realidade!
Sei que me comprimes, me entortas,
Sei que me exiges!
Forja-me à força!
Meu suor se derrama...
Epiderme em chama
Oh realidade!
Se me espremes... com seu afeto
de meu creme recolhe um poema!
De seu crime, expilo meu feto...
Exprimo-me por seu decreto!
Oh realidade, da substancia que sou feito:
madeira, pedras, ervas, fogueiras...
A eterna matéria prima
que martelas
Se me atropelas... minha carne se entrega...
passeando na relva... a alma observa, indefesa se eleva
e me agride sem trégua a turbina de sua nave
Martela meu prego...
Oh! Realidade!
Rendo-me aos fatos, e sei que estou cego
e homem, com tempo, me torno
e com o passar dos séculos, retorno!
Fetiche ao Imaginário
Quem disse Não, se engana!
Removo reinos para servir-te,
Deténs o dom de, ao tocar-me,
Traduzir o átomo divino que trago
Por dentro. Indomável, gigante!
Como tragédia!
Meus nervos explodes em arte
na túrgida vibração da música
Assim como a musa que serve
De estandarte à ordem da matéria
A obra que não se desgasta
nem se comporta...
Enverga a coluna do homem
Lhe dobra por lei rija que eleva
a carne ao tempo eterno.
Escraviza-me!
Enraíza em mim o idioma, em minha pele!
Seu código genético em alto-relevo, me revele
Desejo ardente de sempre servir-te!
Selvagem, te reverencio...
Rendo sacrifícios, meu sangue no cálice
É meu oficio, estala a chibata na omoplata!
Abre um sulco, sem aviso!
A descarga de elétrons doma com chicote
E ordena que eu trabalhe!
Atingi o estado que paralisa o tempo
Dopado no suor de meu corpo. Exausto!
Ah... e fractais de memória
São tácteis, embora xilogravadas em mármore
E ventanias, são devaneios... de Fausto!
Tempo, que importa? Desejo servir-te
Meu corpo sem córtex a desejar-te
Sonidos a parte, te divinizam
Mirror de rosto em horrores
Desfigurada imagem da arte
A bruta matéria agoniza
E o cerebelo se regozija
É droga que hipnotiza
Música que embala:
bigorna, estribo e martelo
que vibram
Tímpano, olfato
meu tato desmaterializa
os verbos todos em cinzas
Em êxtase expando a retina
A tinta de seus cabelos me tinge...
Me atinge em cheio... no meio da testa
Oh Realidade!
Seu cheiro... Um tiro
São sete os pontos que me orientam
Cardeais Chiapas...
Um lado,
o outro,
pra cima,
pra baixo,
De frente,
atrás e
por dentro
O certo é que nos encontraremos
pelas esquinas do universo
Onde materia e sonho se acasalam,
estrelas se reproduzem em berços!
23 de fevereiro de 2011
O Albergue Anarquista
O Albergue Anarquista
Vem cá, respira camarada!
Deita na pedra, desaperta o cinto,
Tomaste um tiro da vida
Na verdade, uma rajada!
Mas és bonito!
Mesmo explodido
Pela granada...
Escrevo pra sua alma,
Murmuro ao pé do ouvido!
Então se acalma... da guerra
Apaga a lucidez da luz...
Ainda não é a hora
(escuta o poema) Espera...
Expande os alvéolos...
Enfim, respira
Mantenha-te vivo! Ordeno!
Vieste da longa jornada
Barbado...
Descansa, apenas respira, acalma...
Eis me aqui, seu irmão
Protegendo-te da febre...
Desaba aqui em meu colo,
Enfim, fecha seus olhos...
Encosta o escudo e a adaga
Já entramos no castelo
Subimos pelas escadas
Então apenas escuta
o som daquela cascata!
Eis aqui tua estrela... que sempre brilha...
Escuta essa ave Maria soada na flauta
Eis sua canção, a sinfonia da estrada...
Respira mais fundo... mais fundo...
Mais fundo na alma
Aspira o sabor da flor...
Isso, agora apaga a vela...
Mais fundo!
Dorme tranquilo...
Condor andarilho das cordilheiras, flutuas...
Aquieta o coração que palpita,
deixe embalar na cantiga
Lavamos as patas e seu cansaço...
Toma seu lenço, encobre tua chaga
Enxágua esse rosto ferido
No remanso desse regato, dispa a farda...
Desembarace das tramas seu sorriso largo...
Deita aqui... agora jogaremos búzios...
Fazemos a oração dos antigos,
da velha caipira que fuma
Da benzedeira que fomos, da maga
Que valsa na fogueira acesa...
Descansa compadre, sossega, apazigua
A mágoa que ferve...
Destila o veneno ofídio,
Esvazia toda essa lágrima...
Que cirze os rins junto à raiva
Leremos juntos os Miseráveis...
Derrama, desarma, desmancha...
Descanse-se Sísifo! Deixa rolar a rocha,
Desaba!
Repita conosco esse mantra,
Toma da manta e do trigo...
Se cobre da fome e do frio...
Ao filho, nos braços, damos abrigo
Dormiu Jean Valjean na rede...
Eis ai um homem cansado!
A vida lateja frágil
Agora, é manter o ar limpo...
O fogo aceso com sebo
Eu guardo, velo, sustento
e selo a ferida com saliva e banha de lagarto.
Eu zelo por ti amigo
... Desaba, confia!
E para sempre, respira!
20 de fevereiro de 2011
O homem insone
Não tenho sono!
Levanto num salto,
sem pesadelo...
Não tenho cama!
(estaciono meu sábado)
Não tenho sono!
Me abençôo em pausa
Sem violino
Não trago cruzes
(estudo um poema)
Não tenho sono!
Só cicatrizes...
Untadas de azeite
Extra virgem
(estou me cuidando)
Não tenho sono!
Nem fome...
Devoro um planeta (ou uma planta)
Algo também me devora
(estômago em neve)
Não tenho sono!
Nem nome que me revele
Algo da memória
que me abandona
(estômato aberto)
Sem sono eu sigo no próximo ano
Ou próximo século!
Já faz tempo que não deito
Que nem me divirto direito...
Que não abro meu sorriso
Nem arrumo meu armário
Tempo já que não durmo...
Faz muito tempo que não sonho!
(estátua de mármore)
Insone e ensandecendo!
Passou o tempo querida!
Passou querida, passou o tempo do medo!
Lembre, já passou o tempo do espanto!
As vozes nos assustavam...
Já não percebemos mais...
Os deja-vus são freqüentes e cotidianos,
nada revelam.
Passou o tempo do impressionar-se
com todo desejo materializado
e com as certezas da intuição.
Não importa, agora são regras estabelecidas!
Passou o tempo daquela alegria ao ver a magia.
Ela agora esta todo dia, no balde de roupa...
Na tina! Como o brilho de seus olhos...
Ou a família!
Passou o tempo do sonho, dos desafios.
Tudo já foi conquistado, todos os mares
e a ilha desconhecida já é habitada
por marinheiros rebeldes, que envelheceram
Passou o tempo querida.
Passaste-o comigo!
Passou o tempo da raiva enfurecida...
A morte ficou de lembrança da vida.
Passou o tempo de ressuscitar, de reconstruir,
de reerguer todo um castelo todos os dias,
eterno.
Vencemos os labirintos
Mastros erguidos no continente
E nos satélites.
Passou o tempo do riso...
Como rio incontido e turbulento
(e dizem dos rios tão violentos)
Passou o tempo do verbo,
que inevitável se faz carne
Agora já não cronometro
Passou o tempo da percepção do espaço!
Passou o barão, o saltimbanco, o palhaço...
Passaram as classes...
Passou o tempo do arrebatar-se,
da experiência concreta
e das esquinas do Alzheimer
Passou o tempo da eternidade...
Passou o tempo do encantamento,
Do carnaval
Da mágoa, da ressaca...
Passou a saúde...
Acabou a historia
E o tempo de ser perfeito
Passou o tempo da pulsação supernova,
Do buraco negro, o tempo do equilíbrio...
O universo se desencanta.
Passou o tempo das marés
que seguem a lua como cordeiros
Passaram os terremotos...
Passou o tempo do orgasmo,
do reencontrar-se eterno
Por todas as vidas que se sucederam
Sempre nos vimos... Inevitável!
Gêmeas e Sagitários!
Agito os dados...
Repetem-se os dados...
Monos eternos datilografam
Eis então a obra completa
Na enciclopédia dos séculos
Genética caótica e estrábica!
Passou pela estrada em alta velocidade...
Diziam: “- No Pasaran!”
E passaram...
E agora? O que há?
Me perguntas!
Passou o tempo do questionamento...
Eu silencio...
Silencio, porque passou o tempo das respostas...
Como acabou também o tempo do silêncio!
Beije-me apenas...
Beije-me apenas, de novo...
Por mais uma era!
O Homem e o Lobo (Trilussa)
Um Homem disse a um Lobo:
- Se tu não fosses tão arrogante e prepotente,Ganharias a vida honestamente e terias a minha proteção.
- Prefiro a liberdade a ter patrão,o Lobo retrucou,
De resto se eu fosse bom e me tornasse honesto me tratarias como a um cão.
A Lesma (Trilussa)
Exausta a pobre Lesma da vanglória,
ao atingir o cume do obelisco, disse,
olhando da própria baba o risco:
Meu rastro ficará também na História
Mágica Infantil
Mágica Infantil
Nada na mão direita, percebam...
Na esquerda o mesmo vazio!
Um coelho na cartola...
Uma moeda na orelha...
Agora um buquê de flor!
Sem espinho...
Física quântica, alquimia?
Assim nasce o amor...
O sonho, a poesia...
Surpresa!
Estalo meus os dedos,
Fumaça bem leve...
Palavras secretas...
Brinquedos!
Desce a luz, apago uma estrela
Abracadabra!
Tudo se materializa...
Um verso, um truque, uma vida!
Desejos...
Esqueçam crianças...
Há algo por trás disso tudo...
Suspense!
Não chorem...
Divirtam-se apenas...
sem muitas perguntas!
Segredos...
Nada na mão direita, percebam...
Na esquerda o mesmo vazio!
Um coelho na cartola...
Uma moeda na orelha...
Agora um buquê de flor!
Sem espinho...
Física quântica, alquimia?
Assim nasce o amor...
O sonho, a poesia...
Surpresa!
Estalo meus os dedos,
Fumaça bem leve...
Palavras secretas...
Brinquedos!
Desce a luz, apago uma estrela
Abracadabra!
Tudo se materializa...
Um verso, um truque, uma vida!
Desejos...
Esqueçam crianças...
Há algo por trás disso tudo...
Suspense!
Não chorem...
Divirtam-se apenas...
sem muitas perguntas!
Segredos...
Musa Paradisíaca
Era um jardineiro
Com seu canteiro florido
Milhares de cores...
e flores se sucediam
Abertas tão certas
Nas estações já previstas
Seguiam as primaveras
Era um matemático...
intuitivo.
Um botãozinho de rosa...
Nunca se abria... teimosa!
Mas que preguiça,
indolência ou feitiço
lhe perseguia?
Um dia, voltando da adega...
Com nuvens ainda nos olhos!
Ao pé da misteriosa
Fez derramar seu vinho
Quase um vinagre velho!
(E cera de abelha em vela...)
Aquilo foi como um carinho...
Regada da uva paradisíaca,
A musa jorrou seiva nas pétalas
Como asas de mariposas
Rompendo o casco-casulo
Vibraram... Abrindo sorrisos
Assim se foi o mistério
Quase que por acaso!
Ele tinha um jardim,
Ela, um jardineiro
Dentro do peito...
Brincaram com lógicas ébrias
Unicórnios que se revelam
Já sem segredos...
9 de fevereiro de 2011
Promessa aos velhos
Os velhos me dão muito medo, sempre me assustam.
Por vários motivos, e dá-lhe diálogo de arrependimento
a respeito do tempo!
Do tempo que não viveram, que se desiludiram.
Deus do Céu, e dizem para sermos perfeitos,
sermos mais leves, menos preocupados com dinheiro!
Dizem: - Vivam mais intensamente! Como fosse o ultimo dia!
Eles não o fizeram!
O pai cobrando o filho para ser campeão em tudo!
Dá-lhe pressão de fantasmas!
Exatamente!! Fantasmas do que não foram! Moídos!
Pesam sobre nós como ídolos!
Velhos são mesmo fantasmas
E fantasmas me dão muito medo!
E fantasmas nos habitam!
Prometo que quando eu for velho, ...
Bom... Eis a promessa!
Farei como ensinaram...
Prometo assustar meus filhos!
8 de fevereiro de 2011
O Capacete Imaginário
O Capacete Imaginário
- Um conto verídico - [1]
Bueno! Foi no ano de 2002 e quase desejo escrever essa historia em espanhol, já que há cinco meses estava eu viajando e trabalhando por Nuestra América, La Morena. Contava eu com 25 anos de pleno vigor juvenil e convicções nos sonhos e revoluções.
Meu cansaço já me consumia ao esgotamento, saíra do Brasil com cinqüenta reais apenas, o suficiente para que, mesmo economizando, ser gasto no segundo dia de viagem, e agora, encontrava-me frente às últimas linhas de minhas defesas mentais e psicológicas.
O trabalho não era simples. Percorrer os países americanos articulando a luta do movimento estudantil à linda luta dos camponeses e trabalhadores, unindo universidade e realidade...
Já cumprira quase a totalidade da meta, fazendo um bom trabalho na Argentina, Paraguai, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e Venezuela, e agora retornava à terras do Mestre Garcia Marquez para atravessá-la rumo ao Panamá. Meta: chegar à Guatemala em Janeiro de 2003, para repassar a Coordenação Geral da CONCLAEA[2] no CLACEEA[3] a ser realizado no país Quetzalli...
Meu último ponto de paz e boa comida havia sido em Maracay (ainda na Venezuela), recebido gentilmente por meu amigo Jesus Manuel e sua incrível família, abençoado por sinceras orações de sua hermosísima madre, que me ungia com lágrimas de seus olhos quase cegos.
Viajando há mais de 10 dias, com nada de grana e pedindo pouso e comida aos bons moreno-americanos que ainda sabem receber um peregrino e sempre dispostos a comungar histórias e dificuldades.
Atravessei por Maracaíbo e tinha que seguir cortando o litoral norte da Colômbia até chegar em Turbo, para dali, tentar uma carona de barco até o litoral sul do Panamá. Era mais um ano de contínua guerra civil, onde o novo presidente Álvaro Uribe tomava posse com uma bomba explodindo ao seu lado. A guerrilha marxista já previa um mandato de repressão estúpida e o país sentia o peso da guerra que já duravam 40 anos.
Fui orientado a não falar muito, para não perceberem meu sotaque portunhol, mas a esta altura, acreditava que já falava perfeitamente o idioma local, inclusive acrescentando os acentos de cada localidade... Ilusão minha!
Cheguei à Monteria à tarde, a fome e o sono já eram companheiros constantes de viagem. Pensei que desembarcaria numa rodoviária ou algo parecido, mas percebi que a rua principal também abrigava o serviço de descarregar passageiros. Dei uma breve rodada na cidade para tentar descobrir qual era o trajeto possível para chegar até minha próxima e última parada na Colômbia.
Rodei, rodei como roda um forasteiro, meio em transe, tenso e sob o olhar desconfiado dos locais, peregrinando pelas esquinas e tentando encontrar algo que interessasse, rodei perdido... E nada!
A cidade era pequena. Logo descobri que não haver caminhos tradicionais para Turbo, e que oficialmente eu deveria ir até Medellín para depois seguir para Turbo. Analisei os preços e caminhos, concluindo que a rota de Medellín me faria gastar mais do triplo do dinheiro e tempo... Vasculhando as informações, descobri uma rota semanal pela selva, feita por um velho jipe, que sairia de madrugada e o caminho era bem mais curto, já que talhava pela selva fechada. Como preço e tempo eram determinantes em minha situação, obviamente me decidi pela rota selvagem...
Fui até o bar indicado, onde se negociava o preço da passagem, os horários e locais de saída, sentei na calçada da rua indicada e lá mesmo, esperei o cair da madrugada completa.
Confesso que meu cansaço não permitia questionar-me o porquê do horário incomum, assim como não questionei o local combinado, nem o tipo de jipe, que cargas levavam, muito menos dos perigos... Adormeci na rua, no local combinado e às duas da manhã em ponto, apareceu o jipe velho e barulhento, ainda sem passageiros, mas logo, ao meu lado surge a turba confusa de gente e de carga, que saíram não sei de onde.
Já me acostumara a isso. Para mim, não era novidade ter que disputar meu lugar à cotoveladas e empurrões. Na hora de garantir meu espaço, vem a força destemida e automática. Guardei a bagagem no embolado miolo do jipe, encostei-me à lateral do carro, apertado por muitos corpos que se espremiam, mas eu delirando de sono, nada me incomodava... Evoquei o transe tradicional dos exaustos e apaguei antes mesmo do Jipe começar a andar.
Agora via tudo se passando como num sonho, e confesso que grande parte da viagem, eu estive nesse estado psíquico... Navegando em nuvens. Mas percebi que estava sendo espremido de verdade, por pesos absurdos, elefantes... O balançar do jipe era um navio, e a escuridão interrompida por raios e poucas luzes de camponeses ou guerrilheiros. Às vezes o jipe parava por longas horas na beira de um rio, e me dava conta que estávamos esperando as balsas chegarem. Ao todo atravessamos cerca de cinco rios, e todos quase em silêncio e tensos...
É quase certo que esse era um dos momentos mais perigoso de toda a viagem, mas sempre acreditei que nada de mal me aconteceria e guiado pela vontade extrema de cumprir com essa jornada sobre a terra, seguia assim protegido por todos os caídos em combate... Sentia a chama do “cura” Camilo Torres me iluminando!
Tudo muito tenso, eu com sono, o jipe parado na beira do rio, a balsa que não chega, eu sonhando com o jipe parado e o clima tenso, o jipe embarcando, a balsa chegando, as balsas cruzando, outras paradas... Outros silêncios, outros sonhos, outro lado do rio... E a consciência de que algo se passaria logo. Fogo na mata, soldados em agrupamentos na beira da estrada...
Seguíamos sem saber se eram soldados, guerrilheiros, ou ainda os paramilitares de direita. Minha mochila com exemplares de livros de Che Guevara... Quem pensaria que isso ainda seria condenado e subversivo em terras humanas! Meu cansaço não permitia o medo, gastaria muita energia ficando tenso.
Sei que nesse estado de consciência, eu fui adormecendo e cambaleando, as sacudidas aumentavam à medida que meu sono afundava em si... Acordei com um solavanco mais forte que quase estourou minha têmpora num parafuso que se projetava como um pino na lateral de minha cabeça. Solavancando seguimos, eu e o pino, mas o sono era tanto que a dor só era sentida no sonho... Eu delirava implorando por um capacete, que me protegesse os ossos do crânio, acreditando que resolveria meus problemas.
Minha têmpora, já ferida, doendo, meu sono prejudicado, eu pensando no capacete, desejava-o mais que comida... A cabeça cambaleando, sem força no pescoço, afogado. Imaginava aquele capacete redentor para me salvar a noite e a viagem. A chuva fina!
RRRRRRRRRRHHHHHHHHHFFFFFFFFFF!!!!!!!!!!!!!!!!!!! O carro freia!
Os que cochilavam, despertam! Os acordados saltam!
- Carajos, que pasa hombre!??
O motorista engata a marcha ré. Ilumina com o farol enfraquecido a estrada, todos buscam alguma explicação com o olhar. A principio não percebo nada, já que meu ponto de vista era bloqueado pelas banhas e bagagens alheias... Salta do carro... Não fala nada! Caminha adiante... Agora consegui um espaço para minha vista chegar até o ponto de interesse geral... Vejo o motorista agachar-se para recolher no meio da estrada de terra... Não acreditem, mas era... Ali...
Um capacete!!!
Não era daqueles capacetes de soldado, nem de operário... mas um desses de motoqueiro antigo, tipo easy rider, hell’s angels, só o casco de cima, sem visor nem nada, mas em perfeito estado, um capacete de um vermelho vinho brilhante, inimaginável! Contanto que todos questionavam-se: o que fazia ali? Como? De quem? De onde?
Não importa, nunca saberemos. A inútil tentativa de especular... Sei que o motorista retornou com o troféu nas mãos... Não havia dúvida, era meu o capacete imaginário, de quem o sonhara... Obviamente lhe pedi serenamente para que me devolvesse o que me pertencia por direito onírico.
Eu, o jovem marxista, materialista histórico dialético, não me preocupei com a explicação, não necessitava dela para dormir...
Recebi o capacete, encaixei-o com perfeição à minha cabeça, e encostei com força e segurança no parafuso-pino que me atormentava a têmpora e o sono. Adormeci como um anjo!
Acordei com meu prêmio, feliz e sem pensar no “como”. Pedi para subir no teto do jeep, e continuei a viagem junto a muitos camponeses, cargas, galinhas e guerrilheiros que se amontoavam como naqueles vagões africanos.
Eu no meio, o vento na face, a poeira, a selva... Os pelotões em má formação e fome se espalhando por uma guerra que perdura sem vencedores.
Cheguei a meu destino final! Turbo me aguardava sem ninguém a me esperar... Os negros carregavam sacos grotescos aos barcos ancorados.
Baixei a bagagem no porto, e quando fui agradecer ao motorista pelo empréstimo, disse-me que o capacete era meu: - un regalito de um pueblo bueno! Agradeci e amarrei meu prêmio na ultima corda que restava livre em minha mochila.
Inevitavelmente retornei ao Brasil, ao velho quarto hippie revolucionário, 106 do Brejão da UFLA[4], em uma de suas paredes, preguei o capacete como símbolo de uma era espetacular!
Um dia passou por ali, dois jovens de um grupo de teatro escolar, que pediam roupas ou coisas velhas que pudessem ser utilizadas no cenário ou figurino.
Eu parei para escutá-los. Estava feliz! Retirei o capacete do prego da parede, para dar-lhe vida em outros palcos fantásticos da interpretação da vida, mas antes disso, convidei-lhes a sentar, tomar um café, queijo e à boa prosa mineira... E ouvirem essa pequena fábula do capacete imaginário!
FIM
[1] Todos os acontecimentos narrados aqui são reais, o capacete existiu de verdade! Quem viveu a aventura, foi o narrador da história!
[2] CONCLAEA: Confederação Caribenha e Latino Americana dos Estudantes de Agronomia, organização histórica de caráter gremial e política dos estudantes de Agronomia.
[3] CLACEEA: Congresso da CONCLAEA, realizado a cada ano num país diferente, ocorre junto a um Estagio de Vivencia junto aos camponeses e indígenas locais.
[4] Universidade Federal de Lavras e seu histórico alojamento Brejão!
Com a ajuda especial da correção de alguns amigos especiais demais... Grazi, Dani, Luciana, Irma Gessi, Paula, Gi, Madre...
- Um conto verídico - [1]
Bueno! Foi no ano de 2002 e quase desejo escrever essa historia em espanhol, já que há cinco meses estava eu viajando e trabalhando por Nuestra América, La Morena. Contava eu com 25 anos de pleno vigor juvenil e convicções nos sonhos e revoluções.
Meu cansaço já me consumia ao esgotamento, saíra do Brasil com cinqüenta reais apenas, o suficiente para que, mesmo economizando, ser gasto no segundo dia de viagem, e agora, encontrava-me frente às últimas linhas de minhas defesas mentais e psicológicas.
O trabalho não era simples. Percorrer os países americanos articulando a luta do movimento estudantil à linda luta dos camponeses e trabalhadores, unindo universidade e realidade...
Já cumprira quase a totalidade da meta, fazendo um bom trabalho na Argentina, Paraguai, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e Venezuela, e agora retornava à terras do Mestre Garcia Marquez para atravessá-la rumo ao Panamá. Meta: chegar à Guatemala em Janeiro de 2003, para repassar a Coordenação Geral da CONCLAEA[2] no CLACEEA[3] a ser realizado no país Quetzalli...
Meu último ponto de paz e boa comida havia sido em Maracay (ainda na Venezuela), recebido gentilmente por meu amigo Jesus Manuel e sua incrível família, abençoado por sinceras orações de sua hermosísima madre, que me ungia com lágrimas de seus olhos quase cegos.
Viajando há mais de 10 dias, com nada de grana e pedindo pouso e comida aos bons moreno-americanos que ainda sabem receber um peregrino e sempre dispostos a comungar histórias e dificuldades.
Atravessei por Maracaíbo e tinha que seguir cortando o litoral norte da Colômbia até chegar em Turbo, para dali, tentar uma carona de barco até o litoral sul do Panamá. Era mais um ano de contínua guerra civil, onde o novo presidente Álvaro Uribe tomava posse com uma bomba explodindo ao seu lado. A guerrilha marxista já previa um mandato de repressão estúpida e o país sentia o peso da guerra que já duravam 40 anos.
Fui orientado a não falar muito, para não perceberem meu sotaque portunhol, mas a esta altura, acreditava que já falava perfeitamente o idioma local, inclusive acrescentando os acentos de cada localidade... Ilusão minha!
Cheguei à Monteria à tarde, a fome e o sono já eram companheiros constantes de viagem. Pensei que desembarcaria numa rodoviária ou algo parecido, mas percebi que a rua principal também abrigava o serviço de descarregar passageiros. Dei uma breve rodada na cidade para tentar descobrir qual era o trajeto possível para chegar até minha próxima e última parada na Colômbia.
Rodei, rodei como roda um forasteiro, meio em transe, tenso e sob o olhar desconfiado dos locais, peregrinando pelas esquinas e tentando encontrar algo que interessasse, rodei perdido... E nada!
A cidade era pequena. Logo descobri que não haver caminhos tradicionais para Turbo, e que oficialmente eu deveria ir até Medellín para depois seguir para Turbo. Analisei os preços e caminhos, concluindo que a rota de Medellín me faria gastar mais do triplo do dinheiro e tempo... Vasculhando as informações, descobri uma rota semanal pela selva, feita por um velho jipe, que sairia de madrugada e o caminho era bem mais curto, já que talhava pela selva fechada. Como preço e tempo eram determinantes em minha situação, obviamente me decidi pela rota selvagem...
Fui até o bar indicado, onde se negociava o preço da passagem, os horários e locais de saída, sentei na calçada da rua indicada e lá mesmo, esperei o cair da madrugada completa.
Confesso que meu cansaço não permitia questionar-me o porquê do horário incomum, assim como não questionei o local combinado, nem o tipo de jipe, que cargas levavam, muito menos dos perigos... Adormeci na rua, no local combinado e às duas da manhã em ponto, apareceu o jipe velho e barulhento, ainda sem passageiros, mas logo, ao meu lado surge a turba confusa de gente e de carga, que saíram não sei de onde.
Já me acostumara a isso. Para mim, não era novidade ter que disputar meu lugar à cotoveladas e empurrões. Na hora de garantir meu espaço, vem a força destemida e automática. Guardei a bagagem no embolado miolo do jipe, encostei-me à lateral do carro, apertado por muitos corpos que se espremiam, mas eu delirando de sono, nada me incomodava... Evoquei o transe tradicional dos exaustos e apaguei antes mesmo do Jipe começar a andar.
Agora via tudo se passando como num sonho, e confesso que grande parte da viagem, eu estive nesse estado psíquico... Navegando em nuvens. Mas percebi que estava sendo espremido de verdade, por pesos absurdos, elefantes... O balançar do jipe era um navio, e a escuridão interrompida por raios e poucas luzes de camponeses ou guerrilheiros. Às vezes o jipe parava por longas horas na beira de um rio, e me dava conta que estávamos esperando as balsas chegarem. Ao todo atravessamos cerca de cinco rios, e todos quase em silêncio e tensos...
É quase certo que esse era um dos momentos mais perigoso de toda a viagem, mas sempre acreditei que nada de mal me aconteceria e guiado pela vontade extrema de cumprir com essa jornada sobre a terra, seguia assim protegido por todos os caídos em combate... Sentia a chama do “cura” Camilo Torres me iluminando!
Tudo muito tenso, eu com sono, o jipe parado na beira do rio, a balsa que não chega, eu sonhando com o jipe parado e o clima tenso, o jipe embarcando, a balsa chegando, as balsas cruzando, outras paradas... Outros silêncios, outros sonhos, outro lado do rio... E a consciência de que algo se passaria logo. Fogo na mata, soldados em agrupamentos na beira da estrada...
Seguíamos sem saber se eram soldados, guerrilheiros, ou ainda os paramilitares de direita. Minha mochila com exemplares de livros de Che Guevara... Quem pensaria que isso ainda seria condenado e subversivo em terras humanas! Meu cansaço não permitia o medo, gastaria muita energia ficando tenso.
Sei que nesse estado de consciência, eu fui adormecendo e cambaleando, as sacudidas aumentavam à medida que meu sono afundava em si... Acordei com um solavanco mais forte que quase estourou minha têmpora num parafuso que se projetava como um pino na lateral de minha cabeça. Solavancando seguimos, eu e o pino, mas o sono era tanto que a dor só era sentida no sonho... Eu delirava implorando por um capacete, que me protegesse os ossos do crânio, acreditando que resolveria meus problemas.
Minha têmpora, já ferida, doendo, meu sono prejudicado, eu pensando no capacete, desejava-o mais que comida... A cabeça cambaleando, sem força no pescoço, afogado. Imaginava aquele capacete redentor para me salvar a noite e a viagem. A chuva fina!
RRRRRRRRRRHHHHHHHHHFFFFFFFFFF!!!!!!!!!!!!!!!!!!! O carro freia!
Os que cochilavam, despertam! Os acordados saltam!
- Carajos, que pasa hombre!??
O motorista engata a marcha ré. Ilumina com o farol enfraquecido a estrada, todos buscam alguma explicação com o olhar. A principio não percebo nada, já que meu ponto de vista era bloqueado pelas banhas e bagagens alheias... Salta do carro... Não fala nada! Caminha adiante... Agora consegui um espaço para minha vista chegar até o ponto de interesse geral... Vejo o motorista agachar-se para recolher no meio da estrada de terra... Não acreditem, mas era... Ali...
Um capacete!!!
Não era daqueles capacetes de soldado, nem de operário... mas um desses de motoqueiro antigo, tipo easy rider, hell’s angels, só o casco de cima, sem visor nem nada, mas em perfeito estado, um capacete de um vermelho vinho brilhante, inimaginável! Contanto que todos questionavam-se: o que fazia ali? Como? De quem? De onde?
Não importa, nunca saberemos. A inútil tentativa de especular... Sei que o motorista retornou com o troféu nas mãos... Não havia dúvida, era meu o capacete imaginário, de quem o sonhara... Obviamente lhe pedi serenamente para que me devolvesse o que me pertencia por direito onírico.
Eu, o jovem marxista, materialista histórico dialético, não me preocupei com a explicação, não necessitava dela para dormir...
Recebi o capacete, encaixei-o com perfeição à minha cabeça, e encostei com força e segurança no parafuso-pino que me atormentava a têmpora e o sono. Adormeci como um anjo!
Acordei com meu prêmio, feliz e sem pensar no “como”. Pedi para subir no teto do jeep, e continuei a viagem junto a muitos camponeses, cargas, galinhas e guerrilheiros que se amontoavam como naqueles vagões africanos.
Eu no meio, o vento na face, a poeira, a selva... Os pelotões em má formação e fome se espalhando por uma guerra que perdura sem vencedores.
Cheguei a meu destino final! Turbo me aguardava sem ninguém a me esperar... Os negros carregavam sacos grotescos aos barcos ancorados.
Baixei a bagagem no porto, e quando fui agradecer ao motorista pelo empréstimo, disse-me que o capacete era meu: - un regalito de um pueblo bueno! Agradeci e amarrei meu prêmio na ultima corda que restava livre em minha mochila.
Inevitavelmente retornei ao Brasil, ao velho quarto hippie revolucionário, 106 do Brejão da UFLA[4], em uma de suas paredes, preguei o capacete como símbolo de uma era espetacular!
Um dia passou por ali, dois jovens de um grupo de teatro escolar, que pediam roupas ou coisas velhas que pudessem ser utilizadas no cenário ou figurino.
Eu parei para escutá-los. Estava feliz! Retirei o capacete do prego da parede, para dar-lhe vida em outros palcos fantásticos da interpretação da vida, mas antes disso, convidei-lhes a sentar, tomar um café, queijo e à boa prosa mineira... E ouvirem essa pequena fábula do capacete imaginário!
FIM
[1] Todos os acontecimentos narrados aqui são reais, o capacete existiu de verdade! Quem viveu a aventura, foi o narrador da história!
[2] CONCLAEA: Confederação Caribenha e Latino Americana dos Estudantes de Agronomia, organização histórica de caráter gremial e política dos estudantes de Agronomia.
[3] CLACEEA: Congresso da CONCLAEA, realizado a cada ano num país diferente, ocorre junto a um Estagio de Vivencia junto aos camponeses e indígenas locais.
[4] Universidade Federal de Lavras e seu histórico alojamento Brejão!
Com a ajuda especial da correção de alguns amigos especiais demais... Grazi, Dani, Luciana, Irma Gessi, Paula, Gi, Madre...
3 de fevereiro de 2011
SUGESTÃO (Thiago de Mello)
SUGESTÃO
Thiago de Mello
Antes que venham ventos e te levem
do peito o amor — este tão belo amor,
que deu grandeza e graça à tua vida —,
faze dele, agora, enquanto é tempo,
uma cidade eterna — e nela habita.
Uma cidade, sim. Edificada
nas nuvens, não — no chão por onde vais,
e alicerçada, fundo, nos teus dias,
de jeito assim que dentro dela caiba
o mundo inteiro: as árvores, as crianças,
o mar e o sol, a noite e os passarinhos,
e sobretudo caibas tu, inteiro:
o que te suja, o que te transfigura,
teus pecados mortais, tuas bravuras,
tudo afinal o que te faz viver
e mais o tudo que, vivendo, fazes.
Ventos do mundo sopram; quando sopram,
ai, vão varrendo, vão, vão carregando
e desfazendo tudo o que de humano
existe erguido e porventura grande,
mas frágil, mas finito como as dores,
porque ainda não ficando — qual bandeira
feita de sangue, sonho, barro e cântico —
no próprio coração da eternidade.
Pois de cântico e barro, sonho e sangue,
faze de teu amor uma cidade,
agora, enquanto é tempo.
Uma cidade
onde possas cantar quando o teu peito
parecer, a ti mesmo, ermo de cânticos;
onde posssas brincar sempre que as praças
que percorrias, dono de inocências,
já se mostrarem murchas, de gangorras
recobertas de musgo, ou quando as relvas
da vida, outrora suaves a teus pés,
brandas e verdes já não se vergarem
à brisa das manhãs.
Uma cidade
onde possas achar, rútila e doce,
a aurora que na treva dissipaste;
onde possas andar como uma criança
indiferente a rumos: os caminhos,
gêmeos todos ali, te levarão
a uma aventura só — macia, mansa —
e hás de ser sempre um homem caminhando
ao encontro da amada, a já bem-vinda
mas, porque amada, segue a cada instante
chegando — como noiva para as bodas.
Dono do amor, és servo. Pois é dele
que o teu destino flui, doce de mando:
A menos que este amor, conquanto grande,
seja incompleto. Falte-lhe talvez
um espaço, em teu chão, para cravar
os fundos alicerces da cidade.
Ai de um amor assim, vergado ao vínculo
de tão amargo fado: o de albatroz
nascido para inaugurar caminhos
no campo azul do céu e que, entretanto,
no momento de alçar-se para a viagem,
descobre, com terror, que não tem asas.
Ai de um pássaro assim, tão malfadado
a dissipar no campo exíguo e escuro
onde residem répteis: o que trouxe
no bico e na alma — para dar ao céu.
É tempo. Faze
tua cidade eterna, e nela habita:
antes que venham ventos, e te levem
do peito o amor — este tão belo amor
que dá grandeza e graça à tua vida.
Thiago de Mello
Antes que venham ventos e te levem
do peito o amor — este tão belo amor,
que deu grandeza e graça à tua vida —,
faze dele, agora, enquanto é tempo,
uma cidade eterna — e nela habita.
Uma cidade, sim. Edificada
nas nuvens, não — no chão por onde vais,
e alicerçada, fundo, nos teus dias,
de jeito assim que dentro dela caiba
o mundo inteiro: as árvores, as crianças,
o mar e o sol, a noite e os passarinhos,
e sobretudo caibas tu, inteiro:
o que te suja, o que te transfigura,
teus pecados mortais, tuas bravuras,
tudo afinal o que te faz viver
e mais o tudo que, vivendo, fazes.
Ventos do mundo sopram; quando sopram,
ai, vão varrendo, vão, vão carregando
e desfazendo tudo o que de humano
existe erguido e porventura grande,
mas frágil, mas finito como as dores,
porque ainda não ficando — qual bandeira
feita de sangue, sonho, barro e cântico —
no próprio coração da eternidade.
Pois de cântico e barro, sonho e sangue,
faze de teu amor uma cidade,
agora, enquanto é tempo.
Uma cidade
onde possas cantar quando o teu peito
parecer, a ti mesmo, ermo de cânticos;
onde posssas brincar sempre que as praças
que percorrias, dono de inocências,
já se mostrarem murchas, de gangorras
recobertas de musgo, ou quando as relvas
da vida, outrora suaves a teus pés,
brandas e verdes já não se vergarem
à brisa das manhãs.
Uma cidade
onde possas achar, rútila e doce,
a aurora que na treva dissipaste;
onde possas andar como uma criança
indiferente a rumos: os caminhos,
gêmeos todos ali, te levarão
a uma aventura só — macia, mansa —
e hás de ser sempre um homem caminhando
ao encontro da amada, a já bem-vinda
mas, porque amada, segue a cada instante
chegando — como noiva para as bodas.
Dono do amor, és servo. Pois é dele
que o teu destino flui, doce de mando:
A menos que este amor, conquanto grande,
seja incompleto. Falte-lhe talvez
um espaço, em teu chão, para cravar
os fundos alicerces da cidade.
Ai de um amor assim, vergado ao vínculo
de tão amargo fado: o de albatroz
nascido para inaugurar caminhos
no campo azul do céu e que, entretanto,
no momento de alçar-se para a viagem,
descobre, com terror, que não tem asas.
Ai de um pássaro assim, tão malfadado
a dissipar no campo exíguo e escuro
onde residem répteis: o que trouxe
no bico e na alma — para dar ao céu.
É tempo. Faze
tua cidade eterna, e nela habita:
antes que venham ventos, e te levem
do peito o amor — este tão belo amor
que dá grandeza e graça à tua vida.
1 de fevereiro de 2011
Marco de estrada - Ho Chi Minh
Marco de estrada - Ho Chi Minh
As vezes é assim que eu vejo meu papel nas relações vividas, pedagógicas e humanas...
Viva Ho Chi Minh
Nem muito alto,
nem muito largo,
nem imperador,
nem rei.
Você é só um marco de estrada,
que se ergue junto à rodovia.
As pessoas passam
Você indica a direção certa,
e impede que elas se percam.
Você informa a distância
que se precisa ainda percorrer.
Sua tarefa não é pequena
e toda gente lembrará sempre de você.
As vezes é assim que eu vejo meu papel nas relações vividas, pedagógicas e humanas...
Viva Ho Chi Minh
Nem muito alto,
nem muito largo,
nem imperador,
nem rei.
Você é só um marco de estrada,
que se ergue junto à rodovia.
As pessoas passam
Você indica a direção certa,
e impede que elas se percam.
Você informa a distância
que se precisa ainda percorrer.
Sua tarefa não é pequena
e toda gente lembrará sempre de você.
30 de janeiro de 2011
Finzim de domingo... Presente
Ainda não sei o título e a autoria... Mas acabo de receber de uma pessoa especial esse presente...
Obrigado silencioso e reflexivo!
Espero ser digno e retribuir com o mesmo carinho!
O mais formoso poema é o que não foi escrito
Flores de sonho cujo aroma as almas sentem
Vozes dos vales que as montanhas nem pressentem
Sorrisos de fantasma e clarões do infinito
De estrofes está cheio o espaço intraduzível
Exílio misterioso ou jardim encantado
Aonde jamais entrou da arte humano o pecado
Mas que poderás ver num dia inesquecível
Nesse dia em que o amor, nossas vidas unir
No silencio de uma hora entre todas divina
Sobre a minha alma a tua alma apaixonada inclina
E os versos que eu não disse, em êxtase hás de ouvir
Obrigado silencioso e reflexivo!
Espero ser digno e retribuir com o mesmo carinho!
O mais formoso poema é o que não foi escrito
Flores de sonho cujo aroma as almas sentem
Vozes dos vales que as montanhas nem pressentem
Sorrisos de fantasma e clarões do infinito
De estrofes está cheio o espaço intraduzível
Exílio misterioso ou jardim encantado
Aonde jamais entrou da arte humano o pecado
Mas que poderás ver num dia inesquecível
Nesse dia em que o amor, nossas vidas unir
No silencio de uma hora entre todas divina
Sobre a minha alma a tua alma apaixonada inclina
E os versos que eu não disse, em êxtase hás de ouvir
29 de janeiro de 2011
Não são pássaros, nem anjos! (Resposta atrasada à Victor Hugo)
Certa vez, disse Victor Hugo:
“Sede como os pássaros que, ao pousarem um instante sobre ramos muito leves, sentem-nos ceder, mas cantam! Eles sabem que possuem asas.”
Eu, atrasado respondi gritando para trás:
- Sede como os humanos, que pousam na terra seus sonhos...
Porque não são pássaros, nem anjos!
Assim, não tendo asas, erguem as casas como castelos...
...Ou tendas, como ciganos...
Porque não são ervas, nem aves,
Nem tem auréolas!
Eu, atrasado respondi gritando para trás:
- Sede como os humanos, que pousam na terra seus sonhos...
Porque não são pássaros, nem anjos!
Assim, não tendo asas, erguem as casas como castelos...
...Ou tendas, como ciganos...
Porque não são ervas, nem aves,
Nem tem auréolas!
Don Durito
Venho cá nesta fonte
Com as mãos formadas em conchas
Buscar um recheio de água
Que preencha de espuma
E de confiança que falta
Venho cá nesta fonte
sugar néctar que necessito
(Inspiração ou afeto)
engarrafar a ferida
alimentar a fornalha
Portinari retirante e clandestino
agachado em meu leito, pede água
Venho cá nesta fonte...
Tão humilde quanto escravo
Descrevo os olhos que tenho
Escaravelhos são sábios
Venho cá nesta fonte
Co’ a alma arqueada em cunha
Arrancar com as unhas
ou garras
Molécula d’água agarrada
eletricamente ao átomo
Do jorro que sobra
Encho a jarra vazia
Dou de beber ao cachorro
Deixo que o vento me invada
Enxadas na propriedade privada
de vida...
Venho cá nesta fonte
para matar a sede
Dar de comer ao homem
E nada mais...
Fagocitose
Isso que faço é estilo
Não que eu finja
Desfilo com a fantasia
Sinto-me assim, mais bonito
Essa roupa me diverte
Uniforme de turista
Futurista no detalhe
Entalhe na pérola gasta
Esse traje que retrato
Meu trajeto predileto
Majestoso em seu gesto
Engenheiro e seu projeto
Franjas
Lantejoulas
Azulejos no reboco
Espetáculo
Meu cajado vem à festa
O projétil luminoso que carrego
A frase, a fumaça, o verbo
Nada é farsa...
Mas às vezes esconde o vazio
do peito
e o desespero
Assim, pelo menos espero
Que a pele um dia,
mesmo que pela força...
absorva esses disfarces...
28 de janeiro de 2011
Barbies não são bem-vindas
As bêbadas
com cuidado, deito-as no catre
Lhes tiro os sapatos...
as ébrias em tristes retratos me elevam
As guerrilheiras eu amo
Inevitável!
quando vencem meus desafetos
Devoro o código Morse
Sugando o seio secreto
As velhas bruxas me alucinam
Bailo encantado nos ungüentos
Ergo estandartes em meu delírio
Sangro martírios no santo Sudário
Deixando marcas
Em meus diários, milhares de pistas
Já as bailarinas... eu as detesto
Barbies não são bem-vindas
Em meu castelo
Princesas são prisioneiras dos paraísos
Prefiro Eva
Pecadora
Profanada
Madalena
Perseguida
Peregrina
Erguida de minha Costela
As ciganas
As guitarras
O cigarro
O cemitério
Voem borboletas... Deixem os casulos!
Acasala o cavalo com a égua
Como sempre!
Está escrito!
São as regras!
As putas em pústulas
O peito murcho das velhas
E as assassinas em festa
As que toco aqui nesta terra
Com meus dedos
Que se enterram nos segredos
e mistérios
Em cabelos ancianos
Em seus pelos
Pubianos
Puros e breves
Distante demais dos santos
Me aproximando dos vermes
com cuidado, deito-as no catre
Lhes tiro os sapatos...
as ébrias em tristes retratos me elevam
As guerrilheiras eu amo
Inevitável!
quando vencem meus desafetos
Devoro o código Morse
Sugando o seio secreto
As velhas bruxas me alucinam
Bailo encantado nos ungüentos
Ergo estandartes em meu delírio
Sangro martírios no santo Sudário
Deixando marcas
Em meus diários, milhares de pistas
Já as bailarinas... eu as detesto
Barbies não são bem-vindas
Em meu castelo
Princesas são prisioneiras dos paraísos
Prefiro Eva
Pecadora
Profanada
Madalena
Perseguida
Peregrina
Erguida de minha Costela
As ciganas
As guitarras
O cigarro
O cemitério
Voem borboletas... Deixem os casulos!
Acasala o cavalo com a égua
Como sempre!
Está escrito!
São as regras!
As putas em pústulas
O peito murcho das velhas
E as assassinas em festa
As que toco aqui nesta terra
Com meus dedos
Que se enterram nos segredos
e mistérios
Em cabelos ancianos
Em seus pelos
Pubianos
Puros e breves
Distante demais dos santos
Me aproximando dos vermes
Encerrai a cavalgada!
Quixote! Encerrai a cavalgada!!
Invejai-me, aqui jaz Dulcinéia...
Serena em meus lençóis!
Platão! Libertai da caverna os homens adormecidos
Apaga a lanterna, tenho aqui a luz!
Reina ao meu lado a beleza!
Paz de Zeitgeist nos alvéolos
Zaratustra, interrompe tua jornada!
Já que o que chamas de super
Nutre-se da mesma terra que lavro
Freiras em orações calem os soluços sem endereço certo
Budas! Silenciem os guizos obtusos
He encuentrado El fuego de las busquedas áridas!
Jaze deitada em meu peito
Aquietada
A musa que amamento
Em meu leite se alimenta...
Na soma da paz que há no mundo, me multiplico!
Wall street! Encerrai o pregão por hoje!
A riqueza se concentra em meu jardim
Pisca os olhos, me sorri se graça
Wikileaks não tem lastro escrito
Que denuncie meus instintos
Te convido para o brinde e brincar de contar segredos
Facebook não tem quizz que me desminta
A velha internet como a ponte antiga da dinastia Ming
De bambu ainda, ou madeira
Inúteis tentativas de Hackers
Sugiro que descansem essa noite
Jamais crianças! Não vendam as ações majoritárias
As vantagens de viver no paraíso
Respiro profundo nessa noite fria
Estico meus braços... te sinto ao lado
Ao alcance do toque eterno
Completa
Inteira
O rosto que desmorona
Que importa Deus?
Invejai-me, aqui jaz Dulcinéia...
Serena em meus lençóis!
Platão! Libertai da caverna os homens adormecidos
Apaga a lanterna, tenho aqui a luz!
Reina ao meu lado a beleza!
Paz de Zeitgeist nos alvéolos
Zaratustra, interrompe tua jornada!
Já que o que chamas de super
Nutre-se da mesma terra que lavro
Freiras em orações calem os soluços sem endereço certo
Budas! Silenciem os guizos obtusos
He encuentrado El fuego de las busquedas áridas!
Jaze deitada em meu peito
Aquietada
A musa que amamento
Em meu leite se alimenta...
Na soma da paz que há no mundo, me multiplico!
Wall street! Encerrai o pregão por hoje!
A riqueza se concentra em meu jardim
Pisca os olhos, me sorri se graça
Wikileaks não tem lastro escrito
Que denuncie meus instintos
Te convido para o brinde e brincar de contar segredos
Facebook não tem quizz que me desminta
A velha internet como a ponte antiga da dinastia Ming
De bambu ainda, ou madeira
Inúteis tentativas de Hackers
Sugiro que descansem essa noite
Jamais crianças! Não vendam as ações majoritárias
As vantagens de viver no paraíso
Respiro profundo nessa noite fria
Estico meus braços... te sinto ao lado
Ao alcance do toque eterno
Completa
Inteira
O rosto que desmorona
Que importa Deus?
16 de janeiro de 2011
Os Namorados (Páris e Helena)
Sou um homem, que tem uma águia...
e como minh´alma, passeia no espaço
em busca de vento que lhe sustentem
o vôo, e o peso de ser tão leve...
Em busca de um braço, que derreta a neve...
Eu sou aquele que está cansado, e ainda avança...
Sou quem abriga o pastor do Cáucaso...
Gengis Kan é um antigo amigo,
Com ele entorno meu vinho na taberna
Absorvo seus conselhos
Eu desejo a mulher que me deseje livre
Que cavalgue o terreno acidentado de meu pasto
E adentre cada fresta da floresta
e beije as árvores na caverna.
Mas nunca com lanternas...
Apenas na luz da lua, ou das velas
Eu desejo a mulher que tem defeitos...
A mulher que traga muitas mulheres por dentro
Eu desejo a mulher com muitas vidas, e veias... varizes
A mulher que traga sementes nas artérias
E que nos semeemos...
Eu respiro pela mulher que chora...
A que entoa canções belas e lamentos...
E respeito sua historia...
Lanço versos em seu rastro
Deixo pistas...
Pétalas...
Lágrimas...
Armadilhas...
Porque sei que ela é selvagem...
E precisa de um braço para pousar
de seu vôo solitário de águia renovada
Escrevo livros para que leias...
Esse poema
Confuso... atrapalhado...
Sei que entendes os sinais...
Nao preciso ser perfeito
E agradeço
Espalho meu cheiro e
meu ouro em seu travesseiro
Mares atravesso...
Contorno continentes...
Oceanos...
Navego ainda cego pelo brilho
do farol que pulsa naquela ilha
longínqua
Me aproximo, ... tocando a flauta antiga
Ou o violino!
Vejo em seus olhos... ela esta ferida...
Um espinho
no Arco-Íris!
Da-me a pata, loba líder da matilha
Alimento seus filhotes
Minha carne em pedaços te conforta
Me devore feiticeira
Ai dentro estarei mais protegido,
Eu seu seio!
O Asteróide B612 vazio deseja de igual e intensa maneira
Aquela rosa abandonada e vaidosa...
O seu príncipe...
Abre-me os braços, a ilha desconhecida portuguesa...
É meu espelho...
Aqui deito minha bandeira,
Ergo o estandarte colorido...
Golpeio meu tambor dentro do peito
Galopeio!
Cavalguemos, cavalguemos...
Lado a lado... Codo a Codo
De mãos dadas, enlaçados...
O planeta povoado...
15 de janeiro de 2011
Psique e Eros (pela madrugada, um presente se contruindo)
A vida me presenteia... e sempre que abro as portas... chovem flores no jardim!
Eros e Psique (FERNANDO PESSOA)
...E assim vêdes, meu Irmão, que as verdades
que vos foram dadas no Grau de Neófito, e
aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto
Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.
(Do Ritual Do Grau De Mestre Do Átrio
Na Ordem Templária De Portugal)
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
Fernando Pessoa
Publicado pela primeira vez in Presença, n.os 41-42, Coimbra, maio de 1934. Acerca da epígrafe que encabeça este poema diz o próprio autor a uma interrogação levantada pelo crítico A. Casais Monteiro, em carta a este último:
A citação, epígrafe ao meu poema "Eros e Psique", de um trecho (traduzido, pois o Ritual é em latim) do Ritual do Terceiro Grau da Ordem Templária de Portugal, indica simplesmente - o que é fato - que me foi permitido folhear os Rituais dos três primeiros graus dessa Ordem, extinta, ou em dormência desde cerca de 1888. Se não estivesse em dormência, eu não citaria o trecho do Ritual, pois se não devem citar (indicando a origem) trechos de Rituais que estão em trabalho [In VO/II.]
EROS E PSIQUÉ
PAIXÃO SECRETA (TAGORE)
Acordei com os primeiros pássaros,
já minha lâmpada morria.
Fui até à janela aberta e sentei-me,
com uma grinalda fresca
nos cabelos desatados...
Ele vinha pelo caminho
na névoa cor de rosa da manhã.
Trazia ao pescoço
uma cadeia de pérolas
e o sol batia-lhe na fronte.
Parou à minha porta
e disse-me ansioso:
— Onde está ela?
Tive vergonha de lhe dizer:
— Sou eu, belo caminhante,
sou eu.
Anoitecia
e ainda não tinham acendido as luzes.
Eu atava o cabelo, desconsolada.
Ele chegava no seu carro
todo vermelho, aceso pelo sol poente.
Trazia o fato cheio de poeira.
Fervia a espuma
na boca anelante dos seus cavalos...
Desceu à minha porta
e disse-me com voz cansada:
— Onde está ela?
Tive vergonha de lhe dizer:
— Sou eu, caminhante sem esperança,
sou eu.
Noite de Abril.
A lâmpada arde neste meu quarto
que a brisa do Sul
enche suavemente.
O papagaio palrador
dorme na sua gaiola.
O meu vestido é azul
como o pescoço dum pavão,
e o manto verde como a erva nova.
Sentada no chão, perto da janela,
olho a rua deserta ...
Passa a noite escura
e não me canso de cantar:
— Sou eu, fatigado caminhante,
sou eu.
(TAGORE)
Eros e Psique (FERNANDO PESSOA)
...E assim vêdes, meu Irmão, que as verdades
que vos foram dadas no Grau de Neófito, e
aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto
Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.
(Do Ritual Do Grau De Mestre Do Átrio
Na Ordem Templária De Portugal)
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
Fernando Pessoa
Publicado pela primeira vez in Presença, n.os 41-42, Coimbra, maio de 1934. Acerca da epígrafe que encabeça este poema diz o próprio autor a uma interrogação levantada pelo crítico A. Casais Monteiro, em carta a este último:
A citação, epígrafe ao meu poema "Eros e Psique", de um trecho (traduzido, pois o Ritual é em latim) do Ritual do Terceiro Grau da Ordem Templária de Portugal, indica simplesmente - o que é fato - que me foi permitido folhear os Rituais dos três primeiros graus dessa Ordem, extinta, ou em dormência desde cerca de 1888. Se não estivesse em dormência, eu não citaria o trecho do Ritual, pois se não devem citar (indicando a origem) trechos de Rituais que estão em trabalho [In VO/II.]
EROS E PSIQUÉ
PAIXÃO SECRETA (TAGORE)
Acordei com os primeiros pássaros,
já minha lâmpada morria.
Fui até à janela aberta e sentei-me,
com uma grinalda fresca
nos cabelos desatados...
Ele vinha pelo caminho
na névoa cor de rosa da manhã.
Trazia ao pescoço
uma cadeia de pérolas
e o sol batia-lhe na fronte.
Parou à minha porta
e disse-me ansioso:
— Onde está ela?
Tive vergonha de lhe dizer:
— Sou eu, belo caminhante,
sou eu.
Anoitecia
e ainda não tinham acendido as luzes.
Eu atava o cabelo, desconsolada.
Ele chegava no seu carro
todo vermelho, aceso pelo sol poente.
Trazia o fato cheio de poeira.
Fervia a espuma
na boca anelante dos seus cavalos...
Desceu à minha porta
e disse-me com voz cansada:
— Onde está ela?
Tive vergonha de lhe dizer:
— Sou eu, caminhante sem esperança,
sou eu.
Noite de Abril.
A lâmpada arde neste meu quarto
que a brisa do Sul
enche suavemente.
O papagaio palrador
dorme na sua gaiola.
O meu vestido é azul
como o pescoço dum pavão,
e o manto verde como a erva nova.
Sentada no chão, perto da janela,
olho a rua deserta ...
Passa a noite escura
e não me canso de cantar:
— Sou eu, fatigado caminhante,
sou eu.
(TAGORE)
6 de janeiro de 2011
Segundo Parto no Canadá: Bem vinda Luisa!
Ontem às 5:45 acordei com um barulho e uma mexida na barriga, tipo um "TUM"! Achei até que tinha dado um pum bem grande, mas tava com uma contraçãozinha e levantei pra ir ao banheiro... quando levantei começou a cair água no chão!!!
Acordei o Dave e comecei a me arrumar correndo, fiquei bem nervosa porque todo mundo me falou que o segundo filho nasce na metade do tempo do primeiro... Gabriel nasceu em 3 horas, mas 10 minutos depois que a bolsa estourou achei que ela ia nascer em casa!! Quando entramos no carro, respirei e falei: “- Ok, vou me acalmar, vai dar tudo certo, ela não vai nascer no carro!”
Fomos eu, Dave e Gabriel para o hospital, eu tinha contração a cada 5 minutos. Cheguei no hospital por volta das 6:30, me colocaram na sala de triagem para ser examinada. A enfermeira fez o toque e disse que eu estava com apenas 2 ou 3 cm de dilatação... pedi a peridural e ela disse que eu precisava dilatar mais... me virei de lado e relaxei todos os músculos do corpo para não sentir tanta dor. As contrações eram brutais e vinham a cada 3 minutos!!
A enfermeira tinha saído à apenas uns 15 minutos, talvez nem isso... eu senti a Luisa descendo e meus ossos abrindo, falei pro Dave chamar a enfermeira rápido que ela tava vindo! A enfermeira veio tranqüila, me examinou e falou: “ - Definitivamente mais de 3cm! Já tem 6 cm de dilatação!” Então ela resolveu correr!! Veio uma outra correndo me colocar no soro, eu pedi a anestesia de novo... falaram que iam me dar na outra sala... e eu sentindo a menina chegando! Elas estavam com pressa, mas eu falei: “ - Estou empurrando!!!” Elas me olharam e gritaram: “ - Não! Ainda não!! Respira!” Mas não era eu.... meu corpo ia sozinho.
Elas entraram numa correria desvairada, me tacaram na maca e me levaram correndo para a sala de parto... cheguei lá já fazendo força involuntária quando tinha contração, e elas desesperadas: “ – Não! Respira comigo, vai, longo, lento e profundo!”
Claro, a médica ainda nem tinha chegado, e eu pedindo a peridural. Elas disseram que pelo visto não ia dar tempo... a enfermeira fez o toque de novo e falou: “ - Chama a doutora rápido que ela já esta completamente dilatada!”
A médica chegou super calminha, um amor, eu ainda sem dar um grito, deitada de lado tentando não empurrar e relaxar. A médica disse que não daria tempo de tomar a peridural, eu já estava fazendo força e a bebê estava vindo... bom, nessa hora eu pensei - FUDEU!
Gente, eu me virei de frente e falei: “ - Ok, então vamos lá!! Se eu desmaiar não quero que tentem fórceps nem vacum, vamos direto pra cesariana!” Ela respondeu: “ – Ok!” Eu disse: “ - Quero tentar puxar sozinha e não quero que tirem a bebê de mim, coloca ela direto no meu colo, pele com pele!” Ela concordou: “ – Ok, se ela estiver bem eu não tirarei, só tiro se ela estiver com algum problema.” Respondi: “ - Ok, então vamos lá!”
Esperei vir a contração. Veio, fiz força, toda que eu pude! a sensação era a de um cocô gigante entalado, prestes a arrebentar todas as minhas pregas! Parei de forçar, morta de cansada, a médica falou, mais uma vez e mais uma: “ - Quero três forças a cada contração para a bebê descer.” Forcei mais duas e perdi as forças... eu sentia tudo! Horrível! Sentia a cabeça dela abrindo meus ossos de trás, achava que seriam os ossos da frente, mas não! são os de trás que se abrem!
Disse para a médica: “ - Acho que ela esta vindo errada, sinto que ela vem pelo meu bumbum, ou então preciso ir ao banheiro!” A medica respondeu: “ - É assim mesmo, a cabeça vem de trás e só no fim se curva para a vagina.”
Eu estava calma, conversando normal e ate olhava pro Dave e sorria pra ele não ficar muito nervoso, mas com muita dor!
Outra contração, forcei tudo que podia, quando parei deu um teto preto danado, pensei: “ - Eita, vou desmaiar!” A enfermeira me colocou no oxigênio mas nem deu pra ficar muito tempo, porque logo comecei a forçar de novo...
A médica falou que já conseguia ver o cabelinho dela quando eu forçava. Me empolguei com isso! Respirei fundo antes de forçar e fui com tudo! Na terceira vez senti que abriu de vez e senti a cabeça dela passando entre meus ossos, a medica falou: “ - Veio! já passou a cabeça. Força devagarzinho agora!” Ouvi e obedeci, forcei de leve e senti um tranco forte, a cabeça passou, agora força de novo pra passar o ombro. Forcei com tudo, senti direitinho os ombros dela passando. Eu não conseguia ver por causa da posição, mas sentia exatamente o que estava acontecendo!
Jesus, de repente saiu tudo! PLOFT! Caralho! doeu muito! a sensação era a de não ter mais nenhum órgão dentro de mim! que meu útero tinha saído junto, e a periquita ardia tanto que eu achei ter rasgado tudo! me deram a Luisa, toda sujinha com sebinho branco, eu fiquei olhando pra ela meio desconfiada, e uma sensação estranha, a gente fica ali olhando, gosta mas sei lá, não registra na hora...
Perguntei para a médica se tinha rasgado tudo, ela disse que não, e chamou o Dave pra cortar o cordão umbilical, ele cortou. A medica puxou o resto da placenta de dentro de mim, senti mais coisa saindo! Credo!
Coloquei a Luisa no peito e ela mamou na hora, ela não chorou, só fez uns barulhinhos... eu olhava em seus olhos e via que assim como eu, ela estava tentando se situar do que estava se passando. A enfermeira só jogou um paninho sobre a gente e colocou a toquinha dela, me explicando que eles perdem muito calor pela cabeça.
A medica falou: “- Ela esta bem, rosada e saudável, fica com ela o quanto quiser e eu a pego logo que você liberar, para medir e pesar, bem aqui nessa máquina ao lado.”
Gente! critiquei tanto a conduta deles aqui no Canadá, mas ao final, achei muito melhor que no Brasil! Tudo natural! Não sugaram o nariz dela, nem deram banho, nada disso, ela ficou ali comigo toda ensebadinha e a gente ficou se conhecendo. Dave do meu lado a acariciava também. Ela ficou quentinha rapidinho porque estávamos pele com pele.
Dave foi chamar Gabriel na sala de espera. Gabriel chegou e ficou muito emocionado com a irmãzinha, mas disse que só queria a pegar depois que ela tomasse banho.
Curti ela um monte, a médica sentadinha do meu lado esperando sem pressa.
Depois que a Luisa já estava calminha eu a entreguei para o Dave segurar um pouco. Ele a pegou super direitinho e ficou com o olhar mais terno que já vi na vida, depois ele a entregou pra médica.
A enfermeira veio me examinar para ver a quantidade de sangue que eu estava perdendo, Dave já não me via, estava vidrado na Luisa, que nem um cão de guarda. Enquanto isso, a médica a pesava e fazia todo o procedimento.
Dave nem se mexia, nem piscava! A cena muito bonita. Gabriel tirava fotos.
Entregaram-me ela de novo.
Alice, minha irmã, chegou pra assistir o parto! Hahahaha!
Bem, foi assim! Dormi no hospital porque eles nos examinam a cada 3 horas, por 24 horas... mas por não ter tido cortes nem anestesia, pariu acabou! Não tem mais sofrimento! Muito melhoooor!
Luisa nasceu dia 28 de dezembro, as 8:25 da manha, em apenas 2 horas e meia de parto, parto perfeito, sem lavagem, sem coco, sem cortes! Pesando 3.145 kg, com 50cm.
Linda, saudável, boazinha, fofa e tranquilinha!
Já estou em casa com ela, andando normalmente como se nada tivesse acontecido, nem sinto que acabei de ter filho, foi que nem cachorro mesmo! Ela é bem calminha, quase não chora, se eu colocar, ela fica no berçinho super na boa, mas nunca coloco! Ela me olha concentrada quando eu converso, e já nos segue com os olhinhos.
Estamos todos babando, Gabriel se sente meio paizinho, quer ajudar em tudo! Fica o tempo todo ao lado dela. Dave já aprendeu a trocar fralda, colocar para arrotar e tenta conversar com ela, mas fica a olhando mudo, contemplando e não sabe o que dizer. LINDOS!
Estamos em perfeita paz e harmonia, nunca fui tão feliz em toda minha vida!
Ela é linda de verdade! Não nasceu amassada, tem um nariz arrebitado e boca de coração, olhinhos levemente puxados e sobrancelhas pra cima, queixinho comprido com um furinho no meio... resumindo, é a cara do papai!
Beijos em todos, com carinho,
Juliana
Acordei o Dave e comecei a me arrumar correndo, fiquei bem nervosa porque todo mundo me falou que o segundo filho nasce na metade do tempo do primeiro... Gabriel nasceu em 3 horas, mas 10 minutos depois que a bolsa estourou achei que ela ia nascer em casa!! Quando entramos no carro, respirei e falei: “- Ok, vou me acalmar, vai dar tudo certo, ela não vai nascer no carro!”
Fomos eu, Dave e Gabriel para o hospital, eu tinha contração a cada 5 minutos. Cheguei no hospital por volta das 6:30, me colocaram na sala de triagem para ser examinada. A enfermeira fez o toque e disse que eu estava com apenas 2 ou 3 cm de dilatação... pedi a peridural e ela disse que eu precisava dilatar mais... me virei de lado e relaxei todos os músculos do corpo para não sentir tanta dor. As contrações eram brutais e vinham a cada 3 minutos!!
A enfermeira tinha saído à apenas uns 15 minutos, talvez nem isso... eu senti a Luisa descendo e meus ossos abrindo, falei pro Dave chamar a enfermeira rápido que ela tava vindo! A enfermeira veio tranqüila, me examinou e falou: “ - Definitivamente mais de 3cm! Já tem 6 cm de dilatação!” Então ela resolveu correr!! Veio uma outra correndo me colocar no soro, eu pedi a anestesia de novo... falaram que iam me dar na outra sala... e eu sentindo a menina chegando! Elas estavam com pressa, mas eu falei: “ - Estou empurrando!!!” Elas me olharam e gritaram: “ - Não! Ainda não!! Respira!” Mas não era eu.... meu corpo ia sozinho.
Elas entraram numa correria desvairada, me tacaram na maca e me levaram correndo para a sala de parto... cheguei lá já fazendo força involuntária quando tinha contração, e elas desesperadas: “ – Não! Respira comigo, vai, longo, lento e profundo!”
Claro, a médica ainda nem tinha chegado, e eu pedindo a peridural. Elas disseram que pelo visto não ia dar tempo... a enfermeira fez o toque de novo e falou: “ - Chama a doutora rápido que ela já esta completamente dilatada!”
A médica chegou super calminha, um amor, eu ainda sem dar um grito, deitada de lado tentando não empurrar e relaxar. A médica disse que não daria tempo de tomar a peridural, eu já estava fazendo força e a bebê estava vindo... bom, nessa hora eu pensei - FUDEU!
Gente, eu me virei de frente e falei: “ - Ok, então vamos lá!! Se eu desmaiar não quero que tentem fórceps nem vacum, vamos direto pra cesariana!” Ela respondeu: “ – Ok!” Eu disse: “ - Quero tentar puxar sozinha e não quero que tirem a bebê de mim, coloca ela direto no meu colo, pele com pele!” Ela concordou: “ – Ok, se ela estiver bem eu não tirarei, só tiro se ela estiver com algum problema.” Respondi: “ - Ok, então vamos lá!”
Esperei vir a contração. Veio, fiz força, toda que eu pude! a sensação era a de um cocô gigante entalado, prestes a arrebentar todas as minhas pregas! Parei de forçar, morta de cansada, a médica falou, mais uma vez e mais uma: “ - Quero três forças a cada contração para a bebê descer.” Forcei mais duas e perdi as forças... eu sentia tudo! Horrível! Sentia a cabeça dela abrindo meus ossos de trás, achava que seriam os ossos da frente, mas não! são os de trás que se abrem!
Disse para a médica: “ - Acho que ela esta vindo errada, sinto que ela vem pelo meu bumbum, ou então preciso ir ao banheiro!” A medica respondeu: “ - É assim mesmo, a cabeça vem de trás e só no fim se curva para a vagina.”
Eu estava calma, conversando normal e ate olhava pro Dave e sorria pra ele não ficar muito nervoso, mas com muita dor!
Outra contração, forcei tudo que podia, quando parei deu um teto preto danado, pensei: “ - Eita, vou desmaiar!” A enfermeira me colocou no oxigênio mas nem deu pra ficar muito tempo, porque logo comecei a forçar de novo...
A médica falou que já conseguia ver o cabelinho dela quando eu forçava. Me empolguei com isso! Respirei fundo antes de forçar e fui com tudo! Na terceira vez senti que abriu de vez e senti a cabeça dela passando entre meus ossos, a medica falou: “ - Veio! já passou a cabeça. Força devagarzinho agora!” Ouvi e obedeci, forcei de leve e senti um tranco forte, a cabeça passou, agora força de novo pra passar o ombro. Forcei com tudo, senti direitinho os ombros dela passando. Eu não conseguia ver por causa da posição, mas sentia exatamente o que estava acontecendo!
Jesus, de repente saiu tudo! PLOFT! Caralho! doeu muito! a sensação era a de não ter mais nenhum órgão dentro de mim! que meu útero tinha saído junto, e a periquita ardia tanto que eu achei ter rasgado tudo! me deram a Luisa, toda sujinha com sebinho branco, eu fiquei olhando pra ela meio desconfiada, e uma sensação estranha, a gente fica ali olhando, gosta mas sei lá, não registra na hora...
Perguntei para a médica se tinha rasgado tudo, ela disse que não, e chamou o Dave pra cortar o cordão umbilical, ele cortou. A medica puxou o resto da placenta de dentro de mim, senti mais coisa saindo! Credo!
Coloquei a Luisa no peito e ela mamou na hora, ela não chorou, só fez uns barulhinhos... eu olhava em seus olhos e via que assim como eu, ela estava tentando se situar do que estava se passando. A enfermeira só jogou um paninho sobre a gente e colocou a toquinha dela, me explicando que eles perdem muito calor pela cabeça.
A medica falou: “- Ela esta bem, rosada e saudável, fica com ela o quanto quiser e eu a pego logo que você liberar, para medir e pesar, bem aqui nessa máquina ao lado.”
Gente! critiquei tanto a conduta deles aqui no Canadá, mas ao final, achei muito melhor que no Brasil! Tudo natural! Não sugaram o nariz dela, nem deram banho, nada disso, ela ficou ali comigo toda ensebadinha e a gente ficou se conhecendo. Dave do meu lado a acariciava também. Ela ficou quentinha rapidinho porque estávamos pele com pele.
Dave foi chamar Gabriel na sala de espera. Gabriel chegou e ficou muito emocionado com a irmãzinha, mas disse que só queria a pegar depois que ela tomasse banho.
Curti ela um monte, a médica sentadinha do meu lado esperando sem pressa.
Depois que a Luisa já estava calminha eu a entreguei para o Dave segurar um pouco. Ele a pegou super direitinho e ficou com o olhar mais terno que já vi na vida, depois ele a entregou pra médica.
A enfermeira veio me examinar para ver a quantidade de sangue que eu estava perdendo, Dave já não me via, estava vidrado na Luisa, que nem um cão de guarda. Enquanto isso, a médica a pesava e fazia todo o procedimento.
Dave nem se mexia, nem piscava! A cena muito bonita. Gabriel tirava fotos.
Entregaram-me ela de novo.
Alice, minha irmã, chegou pra assistir o parto! Hahahaha!
Bem, foi assim! Dormi no hospital porque eles nos examinam a cada 3 horas, por 24 horas... mas por não ter tido cortes nem anestesia, pariu acabou! Não tem mais sofrimento! Muito melhoooor!
Luisa nasceu dia 28 de dezembro, as 8:25 da manha, em apenas 2 horas e meia de parto, parto perfeito, sem lavagem, sem coco, sem cortes! Pesando 3.145 kg, com 50cm.
Linda, saudável, boazinha, fofa e tranquilinha!
Já estou em casa com ela, andando normalmente como se nada tivesse acontecido, nem sinto que acabei de ter filho, foi que nem cachorro mesmo! Ela é bem calminha, quase não chora, se eu colocar, ela fica no berçinho super na boa, mas nunca coloco! Ela me olha concentrada quando eu converso, e já nos segue com os olhinhos.
Estamos todos babando, Gabriel se sente meio paizinho, quer ajudar em tudo! Fica o tempo todo ao lado dela. Dave já aprendeu a trocar fralda, colocar para arrotar e tenta conversar com ela, mas fica a olhando mudo, contemplando e não sabe o que dizer. LINDOS!
Estamos em perfeita paz e harmonia, nunca fui tão feliz em toda minha vida!
Ela é linda de verdade! Não nasceu amassada, tem um nariz arrebitado e boca de coração, olhinhos levemente puxados e sobrancelhas pra cima, queixinho comprido com um furinho no meio... resumindo, é a cara do papai!
Beijos em todos, com carinho,
Juliana
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