23 de fevereiro de 2011

O Albergue Anarquista




O Albergue Anarquista

Vem cá, respira camarada!
Deita na pedra, desaperta o cinto,
Tomaste um tiro da vida
Na verdade, uma rajada!

Mas és bonito!
Mesmo explodido
Pela granada...
Escrevo pra sua alma,
Murmuro ao pé do ouvido!

Então se acalma... da guerra
Apaga a lucidez da luz...
Ainda não é a hora
(escuta o poema) Espera...
Expande os alvéolos...

Enfim, respira
Mantenha-te vivo! Ordeno!
Vieste da longa jornada
Barbado...
Descansa, apenas respira, acalma...

Eis me aqui, seu irmão
Protegendo-te da febre...
Desaba aqui em meu colo,
Enfim, fecha seus olhos...

Encosta o escudo e a adaga
Já entramos no castelo
Subimos pelas escadas
Então apenas escuta
o som daquela cascata!

Eis aqui tua estrela... que sempre brilha...
Escuta essa ave Maria soada na flauta
Eis sua canção, a sinfonia da estrada...
Respira mais fundo... mais fundo...
Mais fundo na alma

Aspira o sabor da flor...
Isso, agora apaga a vela...
Mais fundo!

Dorme tranquilo...
Condor andarilho das cordilheiras, flutuas...

Aquieta o coração que palpita,
deixe embalar na cantiga
Lavamos as patas e seu cansaço...

Toma seu lenço, encobre tua chaga
Enxágua esse rosto ferido
No remanso desse regato, dispa a farda...
Desembarace das tramas seu sorriso largo...
Deita aqui... agora jogaremos búzios...

Fazemos a oração dos antigos,
da velha caipira que fuma
Da benzedeira que fomos, da maga
Que valsa na fogueira acesa...

Descansa compadre, sossega, apazigua
A mágoa que ferve...
Destila o veneno ofídio,
Esvazia toda essa lágrima...
Que cirze os rins junto à raiva
Leremos juntos os Miseráveis...

Derrama, desarma, desmancha...
Descanse-se Sísifo! Deixa rolar a rocha,
Desaba!

Repita conosco esse mantra,
Toma da manta e do trigo...
Se cobre da fome e do frio...
Ao filho, nos braços, damos abrigo

Dormiu Jean Valjean na rede...
Eis ai um homem cansado!
A vida lateja frágil
Agora, é manter o ar limpo...
O fogo aceso com sebo

Eu guardo, velo, sustento
e selo a ferida com saliva e banha de lagarto.
Eu zelo por ti amigo
... Desaba, confia!
E para sempre, respira!

20 de fevereiro de 2011

O homem insone





Não tenho sono!
Levanto num salto,
sem pesadelo...
Não tenho cama!
(estaciono meu sábado)

Não tenho sono!
Me abençôo em pausa
Sem violino
Não trago cruzes
(estudo um poema)

Não tenho sono!
Só cicatrizes...
Untadas de azeite
Extra virgem
(estou me cuidando)

Não tenho sono!
Nem fome...
Devoro um planeta (ou uma planta)
Algo também me devora
(estômago em neve)

Não tenho sono!
Nem nome que me revele
Algo da memória
que me abandona
(estômato aberto)

Sem sono eu sigo no próximo ano
Ou próximo século!
Já faz tempo que não deito
Que nem me divirto direito...

Que não abro meu sorriso
Nem arrumo meu armário
Tempo já que não durmo...
Faz muito tempo que não sonho!
(estátua de mármore)

Insone e ensandecendo!

Passou o tempo querida!


Passou querida, passou o tempo do medo!
Lembre, já passou o tempo do espanto!
As vozes nos assustavam...
Já não percebemos mais...
Os deja-vus são freqüentes e cotidianos,
nada revelam.

Passou o tempo do impressionar-se
com todo desejo materializado
e com as certezas da intuição.
Não importa, agora são regras estabelecidas!

Passou o tempo daquela alegria ao ver a magia.
Ela agora esta todo dia, no balde de roupa...
Na tina! Como o brilho de seus olhos...
Ou a família!

Passou o tempo do sonho, dos desafios.
Tudo já foi conquistado, todos os mares
e a ilha desconhecida já é habitada
por marinheiros rebeldes, que envelheceram

Passou o tempo querida.
Passaste-o comigo!

Passou o tempo da raiva enfurecida...
A morte ficou de lembrança da vida.
Passou o tempo de ressuscitar, de reconstruir,
de reerguer todo um castelo todos os dias,
eterno.

Vencemos os labirintos
Mastros erguidos no continente
E nos satélites.

Passou o tempo do riso...
Como rio incontido e turbulento

(e dizem dos rios tão violentos)

Passou o tempo do verbo,
que inevitável se faz carne
Agora já não cronometro
Passou o tempo da percepção do espaço!
Passou o barão, o saltimbanco, o palhaço...
Passaram as classes...

Passou o tempo do arrebatar-se,
da experiência concreta
e das esquinas do Alzheimer

Passou o tempo da eternidade...

Passou o tempo do encantamento,
Do carnaval
Da mágoa, da ressaca...
Passou a saúde...
Acabou a historia
E o tempo de ser perfeito

Passou o tempo da pulsação supernova,
Do buraco negro, o tempo do equilíbrio...
O universo se desencanta.
Passou o tempo das marés
que seguem a lua como cordeiros
Passaram os terremotos...

Passou o tempo do orgasmo,
do reencontrar-se eterno
Por todas as vidas que se sucederam
Sempre nos vimos... Inevitável!
Gêmeas e Sagitários!

Agito os dados...
Repetem-se os dados...
Monos eternos datilografam
Eis então a obra completa
Na enciclopédia dos séculos
Genética caótica e estrábica!

Passou pela estrada em alta velocidade...
Diziam: “- No Pasaran!”
E passaram...

E agora? O que há?
Me perguntas!

Passou o tempo do questionamento...

Eu silencio...
Silencio, porque passou o tempo das respostas...

Como acabou também o tempo do silêncio!

Beije-me apenas...
Beije-me apenas, de novo...
Por mais uma era!

O Homem e o Lobo (Trilussa)


Um Homem disse a um Lobo:

- Se tu não fosses tão arrogante e prepotente,Ganharias a vida honestamente e terias a minha proteção.

- Prefiro a liberdade a ter patrão,o Lobo retrucou,
De resto se eu fosse bom e me tornasse honesto me tratarias como a um cão.

A Lesma (Trilussa)




Exausta a pobre Lesma da vanglória,

ao atingir o cume do obelisco, disse,

olhando da própria baba o risco:

Meu rastro ficará também na História

Mágica Infantil

Mágica Infantil



Nada na mão direita, percebam...
Na esquerda o mesmo vazio!
Um coelho na cartola...
Uma moeda na orelha...
Agora um buquê de flor!
Sem espinho...

Física quântica, alquimia?
Assim nasce o amor...
O sonho, a poesia...
Surpresa!

Estalo meus os dedos,
Fumaça bem leve...
Palavras secretas...
Brinquedos!

Desce a luz, apago uma estrela
Abracadabra!
Tudo se materializa...
Um verso, um truque, uma vida!
Desejos...

Esqueçam crianças...
Há algo por trás disso tudo...
Suspense!

Não chorem...
Divirtam-se apenas...
sem muitas perguntas!
Segredos...

Musa Paradisíaca




Era um jardineiro
Com seu canteiro florido
Milhares de cores...
e flores se sucediam
Abertas tão certas
Nas estações já previstas
Seguiam as primaveras

Era um matemático...
intuitivo.

Um botãozinho de rosa...
Nunca se abria... teimosa!
Mas que preguiça,
indolência ou feitiço
lhe perseguia?

Um dia, voltando da adega...
Com nuvens ainda nos olhos!
Ao pé da misteriosa
Fez derramar seu vinho
Quase um vinagre velho!
(E cera de abelha em vela...)

Aquilo foi como um carinho...
Regada da uva paradisíaca,
A musa jorrou seiva nas pétalas
Como asas de mariposas
Rompendo o casco-casulo

Vibraram... Abrindo sorrisos

Assim se foi o mistério
Quase que por acaso!

Ele tinha um jardim,
Ela, um jardineiro
Dentro do peito...

Brincaram com lógicas ébrias
Unicórnios que se revelam
Já sem segredos...

9 de fevereiro de 2011

Promessa aos velhos




Os velhos me dão muito medo, sempre me assustam.
Por vários motivos, e dá-lhe diálogo de arrependimento
a respeito do tempo!
Do tempo que não viveram, que se desiludiram.
Deus do Céu, e dizem para sermos perfeitos,
sermos mais leves, menos preocupados com dinheiro!
Dizem: - Vivam mais intensamente! Como fosse o ultimo dia!
Eles não o fizeram!
O pai cobrando o filho para ser campeão em tudo!
Dá-lhe pressão de fantasmas!
Exatamente!! Fantasmas do que não foram! Moídos!
Pesam sobre nós como ídolos!
Velhos são mesmo fantasmas
E fantasmas me dão muito medo!
E fantasmas nos habitam!

Prometo que quando eu for velho, ...
Bom... Eis a promessa!
Farei como ensinaram...
Prometo assustar meus filhos!

8 de fevereiro de 2011

O Capacete Imaginário

O Capacete Imaginário

- Um conto verídico - [1]




Bueno! Foi no ano de 2002 e quase desejo escrever essa historia em espanhol, já que há cinco meses estava eu viajando e trabalhando por Nuestra América, La Morena. Contava eu com 25 anos de pleno vigor juvenil e convicções nos sonhos e revoluções.

Meu cansaço já me consumia ao esgotamento, saíra do Brasil com cinqüenta reais apenas, o suficiente para que, mesmo economizando, ser gasto no segundo dia de viagem, e agora, encontrava-me frente às últimas linhas de minhas defesas mentais e psicológicas.

O trabalho não era simples. Percorrer os países americanos articulando a luta do movimento estudantil à linda luta dos camponeses e trabalhadores, unindo universidade e realidade...

Já cumprira quase a totalidade da meta, fazendo um bom trabalho na Argentina, Paraguai, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e Venezuela, e agora retornava à terras do Mestre Garcia Marquez para atravessá-la rumo ao Panamá. Meta: chegar à Guatemala em Janeiro de 2003, para repassar a Coordenação Geral da CONCLAEA[2] no CLACEEA[3] a ser realizado no país Quetzalli...

Meu último ponto de paz e boa comida havia sido em Maracay (ainda na Venezuela), recebido gentilmente por meu amigo Jesus Manuel e sua incrível família, abençoado por sinceras orações de sua hermosísima madre, que me ungia com lágrimas de seus olhos quase cegos.

Viajando há mais de 10 dias, com nada de grana e pedindo pouso e comida aos bons moreno-americanos que ainda sabem receber um peregrino e sempre dispostos a comungar histórias e dificuldades.

Atravessei por Maracaíbo e tinha que seguir cortando o litoral norte da Colômbia até chegar em Turbo, para dali, tentar uma carona de barco até o litoral sul do Panamá. Era mais um ano de contínua guerra civil, onde o novo presidente Álvaro Uribe tomava posse com uma bomba explodindo ao seu lado. A guerrilha marxista já previa um mandato de repressão estúpida e o país sentia o peso da guerra que já duravam 40 anos.

Fui orientado a não falar muito, para não perceberem meu sotaque portunhol, mas a esta altura, acreditava que já falava perfeitamente o idioma local, inclusive acrescentando os acentos de cada localidade... Ilusão minha!

Cheguei à Monteria à tarde, a fome e o sono já eram companheiros constantes de viagem. Pensei que desembarcaria numa rodoviária ou algo parecido, mas percebi que a rua principal também abrigava o serviço de descarregar passageiros. Dei uma breve rodada na cidade para tentar descobrir qual era o trajeto possível para chegar até minha próxima e última parada na Colômbia.

Rodei, rodei como roda um forasteiro, meio em transe, tenso e sob o olhar desconfiado dos locais, peregrinando pelas esquinas e tentando encontrar algo que interessasse, rodei perdido... E nada!

A cidade era pequena. Logo descobri que não haver caminhos tradicionais para Turbo, e que oficialmente eu deveria ir até Medellín para depois seguir para Turbo. Analisei os preços e caminhos, concluindo que a rota de Medellín me faria gastar mais do triplo do dinheiro e tempo... Vasculhando as informações, descobri uma rota semanal pela selva, feita por um velho jipe, que sairia de madrugada e o caminho era bem mais curto, já que talhava pela selva fechada. Como preço e tempo eram determinantes em minha situação, obviamente me decidi pela rota selvagem...

Fui até o bar indicado, onde se negociava o preço da passagem, os horários e locais de saída, sentei na calçada da rua indicada e lá mesmo, esperei o cair da madrugada completa.

Confesso que meu cansaço não permitia questionar-me o porquê do horário incomum, assim como não questionei o local combinado, nem o tipo de jipe, que cargas levavam, muito menos dos perigos... Adormeci na rua, no local combinado e às duas da manhã em ponto, apareceu o jipe velho e barulhento, ainda sem passageiros, mas logo, ao meu lado surge a turba confusa de gente e de carga, que saíram não sei de onde.

Já me acostumara a isso. Para mim, não era novidade ter que disputar meu lugar à cotoveladas e empurrões. Na hora de garantir meu espaço, vem a força destemida e automática. Guardei a bagagem no embolado miolo do jipe, encostei-me à lateral do carro, apertado por muitos corpos que se espremiam, mas eu delirando de sono, nada me incomodava... Evoquei o transe tradicional dos exaustos e apaguei antes mesmo do Jipe começar a andar.

Agora via tudo se passando como num sonho, e confesso que grande parte da viagem, eu estive nesse estado psíquico... Navegando em nuvens. Mas percebi que estava sendo espremido de verdade, por pesos absurdos, elefantes... O balançar do jipe era um navio, e a escuridão interrompida por raios e poucas luzes de camponeses ou guerrilheiros. Às vezes o jipe parava por longas horas na beira de um rio, e me dava conta que estávamos esperando as balsas chegarem. Ao todo atravessamos cerca de cinco rios, e todos quase em silêncio e tensos...

É quase certo que esse era um dos momentos mais perigoso de toda a viagem, mas sempre acreditei que nada de mal me aconteceria e guiado pela vontade extrema de cumprir com essa jornada sobre a terra, seguia assim protegido por todos os caídos em combate... Sentia a chama do “cura” Camilo Torres me iluminando!

Tudo muito tenso, eu com sono, o jipe parado na beira do rio, a balsa que não chega, eu sonhando com o jipe parado e o clima tenso, o jipe embarcando, a balsa chegando, as balsas cruzando, outras paradas... Outros silêncios, outros sonhos, outro lado do rio... E a consciência de que algo se passaria logo. Fogo na mata, soldados em agrupamentos na beira da estrada...

Seguíamos sem saber se eram soldados, guerrilheiros, ou ainda os paramilitares de direita. Minha mochila com exemplares de livros de Che Guevara... Quem pensaria que isso ainda seria condenado e subversivo em terras humanas! Meu cansaço não permitia o medo, gastaria muita energia ficando tenso.

Sei que nesse estado de consciência, eu fui adormecendo e cambaleando, as sacudidas aumentavam à medida que meu sono afundava em si... Acordei com um solavanco mais forte que quase estourou minha têmpora num parafuso que se projetava como um pino na lateral de minha cabeça. Solavancando seguimos, eu e o pino, mas o sono era tanto que a dor só era sentida no sonho... Eu delirava implorando por um capacete, que me protegesse os ossos do crânio, acreditando que resolveria meus problemas.

Minha têmpora, já ferida, doendo, meu sono prejudicado, eu pensando no capacete, desejava-o mais que comida... A cabeça cambaleando, sem força no pescoço, afogado. Imaginava aquele capacete redentor para me salvar a noite e a viagem. A chuva fina!



RRRRRRRRRRHHHHHHHHHFFFFFFFFFF!!!!!!!!!!!!!!!!!!! O carro freia!

Os que cochilavam, despertam! Os acordados saltam!

- Carajos, que pasa hombre!??


O motorista engata a marcha ré. Ilumina com o farol enfraquecido a estrada, todos buscam alguma explicação com o olhar. A principio não percebo nada, já que meu ponto de vista era bloqueado pelas banhas e bagagens alheias... Salta do carro... Não fala nada! Caminha adiante... Agora consegui um espaço para minha vista chegar até o ponto de interesse geral... Vejo o motorista agachar-se para recolher no meio da estrada de terra... Não acreditem, mas era... Ali...

Um capacete!!!

Não era daqueles capacetes de soldado, nem de operário... mas um desses de motoqueiro antigo, tipo easy rider, hell’s angels, só o casco de cima, sem visor nem nada, mas em perfeito estado, um capacete de um vermelho vinho brilhante, inimaginável! Contanto que todos questionavam-se: o que fazia ali? Como? De quem? De onde?

Não importa, nunca saberemos. A inútil tentativa de especular... Sei que o motorista retornou com o troféu nas mãos... Não havia dúvida, era meu o capacete imaginário, de quem o sonhara... Obviamente lhe pedi serenamente para que me devolvesse o que me pertencia por direito onírico.

Eu, o jovem marxista, materialista histórico dialético, não me preocupei com a explicação, não necessitava dela para dormir...

Recebi o capacete, encaixei-o com perfeição à minha cabeça, e encostei com força e segurança no parafuso-pino que me atormentava a têmpora e o sono. Adormeci como um anjo!

Acordei com meu prêmio, feliz e sem pensar no “como”. Pedi para subir no teto do jeep, e continuei a viagem junto a muitos camponeses, cargas, galinhas e guerrilheiros que se amontoavam como naqueles vagões africanos.

Eu no meio, o vento na face, a poeira, a selva... Os pelotões em má formação e fome se espalhando por uma guerra que perdura sem vencedores.

Cheguei a meu destino final! Turbo me aguardava sem ninguém a me esperar... Os negros carregavam sacos grotescos aos barcos ancorados.

Baixei a bagagem no porto, e quando fui agradecer ao motorista pelo empréstimo, disse-me que o capacete era meu: - un regalito de um pueblo bueno! Agradeci e amarrei meu prêmio na ultima corda que restava livre em minha mochila.

Inevitavelmente retornei ao Brasil, ao velho quarto hippie revolucionário, 106 do Brejão da UFLA[4], em uma de suas paredes, preguei o capacete como símbolo de uma era espetacular!

Um dia passou por ali, dois jovens de um grupo de teatro escolar, que pediam roupas ou coisas velhas que pudessem ser utilizadas no cenário ou figurino.

Eu parei para escutá-los. Estava feliz! Retirei o capacete do prego da parede, para dar-lhe vida em outros palcos fantásticos da interpretação da vida, mas antes disso, convidei-lhes a sentar, tomar um café, queijo e à boa prosa mineira... E ouvirem essa pequena fábula do capacete imaginário!


FIM


[1] Todos os acontecimentos narrados aqui são reais, o capacete existiu de verdade! Quem viveu a aventura, foi o narrador da história!

[2] CONCLAEA: Confederação Caribenha e Latino Americana dos Estudantes de Agronomia, organização histórica de caráter gremial e política dos estudantes de Agronomia.

[3] CLACEEA: Congresso da CONCLAEA, realizado a cada ano num país diferente, ocorre junto a um Estagio de Vivencia junto aos camponeses e indígenas locais.

[4] Universidade Federal de Lavras e seu histórico alojamento Brejão!


Com a ajuda especial da correção de alguns amigos especiais demais... Grazi, Dani, Luciana, Irma Gessi, Paula, Gi, Madre...


3 de fevereiro de 2011

SUGESTÃO (Thiago de Mello)

SUGESTÃO
Thiago de Mello

Antes que venham ventos e te levem
do peito o amor — este tão belo amor,
que deu grandeza e graça à tua vida —,
faze dele, agora, enquanto é tempo,
uma cidade eterna — e nela habita.

Uma cidade, sim. Edificada
nas nuvens, não — no chão por onde vais,
e alicerçada, fundo, nos teus dias,
de jeito assim que dentro dela caiba
o mundo inteiro: as árvores, as crianças,
o mar e o sol, a noite e os passarinhos,
e sobretudo caibas tu, inteiro:
o que te suja, o que te transfigura,
teus pecados mortais, tuas bravuras,
tudo afinal o que te faz viver
e mais o tudo que, vivendo, fazes.

Ventos do mundo sopram; quando sopram,
ai, vão varrendo, vão, vão carregando
e desfazendo tudo o que de humano
existe erguido e porventura grande,
mas frágil, mas finito como as dores,
porque ainda não ficando — qual bandeira
feita de sangue, sonho, barro e cântico —
no próprio coração da eternidade.
Pois de cântico e barro, sonho e sangue,
faze de teu amor uma cidade,
agora, enquanto é tempo.

Uma cidade
onde possas cantar quando o teu peito
parecer, a ti mesmo, ermo de cânticos;
onde posssas brincar sempre que as praças
que percorrias, dono de inocências,
já se mostrarem murchas, de gangorras
recobertas de musgo, ou quando as relvas
da vida, outrora suaves a teus pés,
brandas e verdes já não se vergarem
à brisa das manhãs.

Uma cidade
onde possas achar, rútila e doce,
a aurora que na treva dissipaste;
onde possas andar como uma criança
indiferente a rumos: os caminhos,
gêmeos todos ali, te levarão
a uma aventura só — macia, mansa —
e hás de ser sempre um homem caminhando
ao encontro da amada, a já bem-vinda
mas, porque amada, segue a cada instante
chegando — como noiva para as bodas.

Dono do amor, és servo. Pois é dele
que o teu destino flui, doce de mando:
A menos que este amor, conquanto grande,
seja incompleto. Falte-lhe talvez
um espaço, em teu chão, para cravar
os fundos alicerces da cidade.

Ai de um amor assim, vergado ao vínculo
de tão amargo fado: o de albatroz
nascido para inaugurar caminhos
no campo azul do céu e que, entretanto,
no momento de alçar-se para a viagem,
descobre, com terror, que não tem asas.

Ai de um pássaro assim, tão malfadado
a dissipar no campo exíguo e escuro
onde residem répteis: o que trouxe
no bico e na alma — para dar ao céu.

É tempo. Faze
tua cidade eterna, e nela habita:
antes que venham ventos, e te levem
do peito o amor — este tão belo amor
que dá grandeza e graça à tua vida.

1 de fevereiro de 2011

Marco de estrada - Ho Chi Minh

Marco de estrada - Ho Chi Minh

As vezes é assim que eu vejo meu papel nas relações vividas, pedagógicas e humanas...
Viva Ho Chi Minh



Nem muito alto,
nem muito largo,
nem imperador,
nem rei.
Você é só um marco de estrada,
que se ergue junto à rodovia.
As pessoas passam
Você indica a direção certa,
e impede que elas se percam.
Você informa a distância
que se precisa ainda percorrer.
Sua tarefa não é pequena
e toda gente lembrará sempre de você.

30 de janeiro de 2011

Finzim de domingo... Presente

Ainda não sei o título e a autoria... Mas acabo de receber de uma pessoa especial esse presente...
Obrigado silencioso e reflexivo!
Espero ser digno e retribuir com o mesmo carinho!



O mais formoso poema é o que não foi escrito
Flores de sonho cujo aroma as almas sentem
Vozes dos vales que as montanhas nem pressentem
Sorrisos de fantasma e clarões do infinito

De estrofes está cheio o espaço intraduzível
Exílio misterioso ou jardim encantado
Aonde jamais entrou da arte humano o pecado
Mas que poderás ver num dia inesquecível

Nesse dia em que o amor, nossas vidas unir
No silencio de uma hora entre todas divina
Sobre a minha alma a tua alma apaixonada inclina
E os versos que eu não disse, em êxtase hás de ouvir

29 de janeiro de 2011

Não são pássaros, nem anjos! (Resposta atrasada à Victor Hugo)

Certa vez, disse Victor Hugo:
“Sede como os pássaros que, ao pousarem um instante sobre ramos muito leves, sentem-nos ceder, mas cantam! Eles sabem que possuem asas.” 


Eu, atrasado respondi gritando para trás: 
- Sede como os humanos, que pousam na terra seus sonhos...
Porque não são pássaros, nem anjos!
Assim, não tendo asas, erguem as casas como castelos...
...Ou tendas, como ciganos...
Porque não são ervas, nem aves,
Nem tem auréolas!



Don Durito




Venho cá nesta fonte
Com as mãos formadas em conchas
Buscar um recheio de água
Que preencha de espuma
E de confiança que falta

Venho cá nesta fonte
sugar néctar que necessito
(Inspiração ou afeto)
engarrafar a ferida
alimentar a fornalha
Portinari retirante e clandestino
agachado em meu leito, pede água

Venho cá nesta fonte...
Tão humilde quanto escravo
Descrevo os olhos que tenho
Escaravelhos são sábios

Venho cá nesta fonte
Co’ a alma arqueada em cunha
Arrancar com as unhas
ou garras
Molécula d’água agarrada
eletricamente ao átomo

Do jorro que sobra
Encho a jarra vazia
Dou de beber ao cachorro

Deixo que o vento me invada
Enxadas na propriedade privada
de vida...

Venho cá nesta fonte
para matar a sede
Dar de comer ao homem

E nada mais...

Fagocitose





Isso que faço é estilo
Não que eu finja
Desfilo com a fantasia
Sinto-me assim, mais bonito

Essa roupa me diverte
Uniforme de turista
Futurista no detalhe
Entalhe na pérola gasta

Esse traje que retrato
Meu trajeto predileto
Majestoso em seu gesto
Engenheiro e seu projeto

Franjas
Lantejoulas
Azulejos no reboco
Espetáculo

Meu cajado vem à festa
O projétil luminoso que carrego
A frase, a fumaça, o verbo

Nada é farsa...
Mas às vezes esconde o vazio
do peito
e o desespero

Assim, pelo menos espero
Que a pele um dia,
mesmo que pela força...
absorva esses disfarces...

28 de janeiro de 2011

Barbies não são bem-vindas

As bêbadas
com cuidado, deito-as no catre
Lhes tiro os sapatos...
as ébrias em tristes retratos me elevam

As guerrilheiras eu amo
Inevitável!
quando vencem meus desafetos
Devoro o código Morse
Sugando o seio secreto

As velhas bruxas me alucinam
Bailo encantado nos ungüentos
Ergo estandartes em meu delírio
Sangro martírios no santo Sudário

Deixando marcas

Em meus diários, milhares de pistas

Já as bailarinas... eu as detesto
Barbies não são bem-vindas
Em meu castelo

Princesas são prisioneiras dos paraísos

Prefiro Eva
Pecadora
Profanada
Madalena
Perseguida
Peregrina
Erguida de minha Costela

As ciganas
As guitarras
O cigarro
O cemitério

Voem borboletas... Deixem os casulos!

Acasala o cavalo com a égua

Como sempre!
Está escrito!
São as regras!

As putas em pústulas
O peito murcho das velhas
E as assassinas em festa

As que toco aqui nesta terra
Com meus dedos
Que se enterram nos segredos
e mistérios

Em cabelos ancianos
Em seus pelos
Pubianos

Puros e breves
Distante demais dos santos

Me aproximando dos vermes

Encerrai a cavalgada!

Quixote! Encerrai a cavalgada!!
Invejai-me, aqui jaz Dulcinéia...
Serena em meus lençóis!

Platão! Libertai da caverna os homens adormecidos
Apaga a lanterna, tenho aqui a luz!
Reina ao meu lado a beleza!
Paz de Zeitgeist nos alvéolos

Zaratustra, interrompe tua jornada!
Já que o que chamas de super
Nutre-se da mesma terra que lavro

Freiras em orações calem os soluços sem endereço certo
Budas! Silenciem os guizos obtusos
He encuentrado El fuego de las busquedas áridas!

Jaze deitada em meu peito
Aquietada
A musa que amamento
Em meu leite se alimenta...

Na soma da paz que há no mundo, me multiplico!

Wall street! Encerrai o pregão por hoje!
A riqueza se concentra em meu jardim
Pisca os olhos, me sorri se graça
Wikileaks não tem lastro escrito
Que denuncie meus instintos
Te convido para o brinde e brincar de contar segredos
Facebook não tem quizz que me desminta
A velha internet como a ponte antiga da dinastia Ming
De bambu ainda, ou madeira
Inúteis tentativas de Hackers
Sugiro que descansem essa noite
Jamais crianças! Não vendam as ações majoritárias
As vantagens de viver no paraíso
Respiro profundo nessa noite fria
Estico meus braços... te sinto ao lado
Ao alcance do toque eterno
Completa
Inteira
O rosto que desmorona
Que importa Deus?

16 de janeiro de 2011

Os Namorados (Páris e Helena)




Sou um homem, que tem uma águia...
e como minh´alma, passeia no espaço
em busca de vento que lhe sustentem
o vôo, e o peso de ser tão leve...
Em busca de um braço, que derreta a neve...

Eu sou aquele que está cansado, e ainda avança...
Sou quem abriga o pastor do Cáucaso...
Gengis Kan é um antigo amigo,
Com ele entorno meu vinho na taberna
Absorvo seus conselhos

Eu desejo a mulher que me deseje livre
Que cavalgue o terreno acidentado de meu pasto
E adentre cada fresta da floresta
e beije as árvores na caverna.
Mas nunca com lanternas...
Apenas na luz da lua, ou das velas

Eu desejo a mulher que tem defeitos...
A mulher que traga muitas mulheres por dentro
Eu desejo a mulher com muitas vidas, e veias... varizes
A mulher que traga sementes nas artérias
E que nos semeemos...
Eu respiro pela mulher que chora...
A que entoa canções belas e lamentos...
E respeito sua historia...

Lanço versos em seu rastro
Deixo pistas...
Pétalas...
Lágrimas...
Armadilhas...
Porque sei que ela é selvagem...
E precisa de um braço para pousar
de seu vôo solitário de águia renovada

Escrevo livros para que leias...
Esse poema
Confuso... atrapalhado...

Sei que entendes os sinais...
Nao preciso ser perfeito
E agradeço

Espalho meu cheiro e
meu ouro em seu travesseiro

Mares atravesso...
Contorno continentes...
Oceanos...
Navego ainda cego pelo brilho
do farol que pulsa naquela ilha
longínqua

Me aproximo, ... tocando a flauta antiga
Ou o violino!

Vejo em seus olhos... ela esta ferida...
Um espinho
no Arco-Íris!

Da-me a pata, loba líder da matilha
Alimento seus filhotes
Minha carne em pedaços te conforta

Me devore feiticeira
Ai dentro estarei mais protegido,
Eu seu seio!

O Asteróide B612 vazio deseja de igual e intensa maneira
Aquela rosa abandonada e vaidosa...
O seu príncipe...
Abre-me os braços, a ilha desconhecida portuguesa...
É meu espelho...
Aqui deito minha bandeira,
Ergo o estandarte colorido...
Golpeio meu tambor dentro do peito
Galopeio!

Cavalguemos, cavalguemos...
Lado a lado... Codo a Codo
De mãos dadas, enlaçados...

O planeta povoado...

15 de janeiro de 2011

Psique e Eros (pela madrugada, um presente se contruindo)

A vida me presenteia... e sempre que abro as portas... chovem flores no jardim!

Eros e Psique (FERNANDO PESSOA)

...E assim vêdes, meu Irmão, que as verdades
que vos foram dadas no Grau de Neófito, e
aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto
Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.

(Do Ritual Do Grau De Mestre Do Átrio
Na Ordem Templária De Portugal)

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

Fernando Pessoa

Publicado pela primeira vez in Presença, n.os 41-42, Coimbra, maio de 1934. Acerca da epígrafe que encabeça este poema diz o próprio autor a uma interrogação levantada pelo crítico A. Casais Monteiro, em carta a este último:

A citação, epígrafe ao meu poema "Eros e Psique", de um trecho (traduzido, pois o Ritual é em latim) do Ritual do Terceiro Grau da Ordem Templária de Portugal, indica simplesmente - o que é fato - que me foi permitido folhear os Rituais dos três primeiros graus dessa Ordem, extinta, ou em dormência desde cerca de 1888. Se não estivesse em dormência, eu não citaria o trecho do Ritual, pois se não devem citar (indicando a origem) trechos de Rituais que estão em trabalho [In VO/II.]

EROS E PSIQUÉ


PAIXÃO SECRETA (TAGORE)

Acordei com os primeiros pássaros,
já minha lâmpada morria.
Fui até à janela aberta e sentei-me,
com uma grinalda fresca
nos cabelos desatados...
Ele vinha pelo caminho
na névoa cor de rosa da manhã.
Trazia ao pescoço
uma cadeia de pérolas
e o sol batia-lhe na fronte.
Parou à minha porta
e disse-me ansioso:
— Onde está ela?
Tive vergonha de lhe dizer:

— Sou eu, belo caminhante,
sou eu.

Anoitecia
e ainda não tinham acendido as luzes.
Eu atava o cabelo, desconsolada.
Ele chegava no seu carro
todo vermelho, aceso pelo sol poente.
Trazia o fato cheio de poeira.
Fervia a espuma
na boca anelante dos seus cavalos...
Desceu à minha porta
e disse-me com voz cansada:
— Onde está ela?
Tive vergonha de lhe dizer:

— Sou eu, caminhante sem esperança,
sou eu.

Noite de Abril.
A lâmpada arde neste meu quarto
que a brisa do Sul
enche suavemente.
O papagaio palrador
dorme na sua gaiola.
O meu vestido é azul
como o pescoço dum pavão,
e o manto verde como a erva nova.
Sentada no chão, perto da janela,
olho a rua deserta ...
Passa a noite escura
e não me canso de cantar:
— Sou eu, fatigado caminhante,
sou eu.

(TAGORE)

6 de janeiro de 2011

Segundo Parto no Canadá: Bem vinda Luisa!

Ontem às 5:45 acordei com um barulho e uma mexida na barriga, tipo um "TUM"! Achei até que tinha dado um pum bem grande, mas tava com uma contraçãozinha e levantei pra ir ao banheiro... quando levantei começou a cair água no chão!!!
Acordei o Dave e comecei a me arrumar correndo, fiquei bem nervosa porque todo mundo me falou que o segundo filho nasce na metade do tempo do primeiro... Gabriel nasceu em 3 horas, mas 10 minutos depois que a bolsa estourou achei que ela ia nascer em casa!! Quando entramos no carro, respirei e falei: “- Ok, vou me acalmar, vai dar tudo certo, ela não vai nascer no carro!”
Fomos eu, Dave e Gabriel para o hospital, eu tinha contração a cada 5 minutos. Cheguei no hospital por volta das 6:30, me colocaram na sala de triagem para ser examinada. A enfermeira fez o toque e disse que eu estava com apenas 2 ou 3 cm de dilatação... pedi a peridural e ela disse que eu precisava dilatar mais... me virei de lado e relaxei todos os músculos do corpo para não sentir tanta dor. As contrações eram brutais e vinham a cada 3 minutos!!
A enfermeira tinha saído à apenas uns 15 minutos, talvez nem isso... eu senti a Luisa descendo e meus ossos abrindo, falei pro Dave chamar a enfermeira rápido que ela tava vindo! A enfermeira veio tranqüila, me examinou e falou: “ - Definitivamente mais de 3cm! Já tem 6 cm de dilatação!” Então ela resolveu correr!! Veio uma outra correndo me colocar no soro, eu pedi a anestesia de novo... falaram que iam me dar na outra sala... e eu sentindo a menina chegando! Elas estavam com pressa, mas eu falei: “ - Estou empurrando!!!” Elas me olharam e gritaram: “ - Não! Ainda não!! Respira!” Mas não era eu.... meu corpo ia sozinho.
Elas entraram numa correria desvairada, me tacaram na maca e me levaram correndo para a sala de parto... cheguei lá já fazendo força involuntária quando tinha contração, e elas desesperadas: “ – Não! Respira comigo, vai, longo, lento e profundo!”
Claro, a médica ainda nem tinha chegado, e eu pedindo a peridural. Elas disseram que pelo visto não ia dar tempo... a enfermeira fez o toque de novo e falou: “ - Chama a doutora rápido que ela já esta completamente dilatada!”
A médica chegou super calminha, um amor, eu ainda sem dar um grito, deitada de lado tentando não empurrar e relaxar. A médica disse que não daria tempo de tomar a peridural, eu já estava fazendo força e a bebê estava vindo... bom, nessa hora eu pensei - FUDEU!
Gente, eu me virei de frente e falei: “ - Ok, então vamos lá!! Se eu desmaiar não quero que tentem fórceps nem vacum, vamos direto pra cesariana!” Ela respondeu: “ – Ok!” Eu disse: “ - Quero tentar puxar sozinha e não quero que tirem a bebê de mim, coloca ela direto no meu colo, pele com pele!” Ela concordou: “ – Ok, se ela estiver bem eu não tirarei, só tiro se ela estiver com algum problema.” Respondi: “ - Ok, então vamos lá!”
Esperei vir a contração. Veio, fiz força, toda que eu pude! a sensação era a de um cocô gigante entalado, prestes a arrebentar todas as minhas pregas! Parei de forçar, morta de cansada, a médica falou, mais uma vez e mais uma: “ - Quero três forças a cada contração para a bebê descer.” Forcei mais duas e perdi as forças... eu sentia tudo! Horrível! Sentia a cabeça dela abrindo meus ossos de trás, achava que seriam os ossos da frente, mas não! são os de trás que se abrem!
Disse para a médica: “ - Acho que ela esta vindo errada, sinto que ela vem pelo meu bumbum, ou então preciso ir ao banheiro!” A medica respondeu: “ - É assim mesmo, a cabeça vem de trás e só no fim se curva para a vagina.”
Eu estava calma, conversando normal e ate olhava pro Dave e sorria pra ele não ficar muito nervoso, mas com muita dor!
Outra contração, forcei tudo que podia, quando parei deu um teto preto danado, pensei: “ - Eita, vou desmaiar!” A enfermeira me colocou no oxigênio mas nem deu pra ficar muito tempo, porque logo comecei a forçar de novo...
A médica falou que já conseguia ver o cabelinho dela quando eu forçava. Me empolguei com isso! Respirei fundo antes de forçar e fui com tudo! Na terceira vez senti que abriu de vez e senti a cabeça dela passando entre meus ossos, a medica falou: “ - Veio! já passou a cabeça. Força devagarzinho agora!” Ouvi e obedeci, forcei de leve e senti um tranco forte, a cabeça passou, agora força de novo pra passar o ombro. Forcei com tudo, senti direitinho os ombros dela passando. Eu não conseguia ver por causa da posição, mas sentia exatamente o que estava acontecendo!
Jesus, de repente saiu tudo! PLOFT! Caralho! doeu muito! a sensação era a de não ter mais nenhum órgão dentro de mim! que meu útero tinha saído junto, e a periquita ardia tanto que eu achei ter rasgado tudo! me deram a Luisa, toda sujinha com sebinho branco, eu fiquei olhando pra ela meio desconfiada, e uma sensação estranha, a gente fica ali olhando, gosta mas sei lá, não registra na hora...
Perguntei para a médica se tinha rasgado tudo, ela disse que não, e chamou o Dave pra cortar o cordão umbilical, ele cortou. A medica puxou o resto da placenta de dentro de mim, senti mais coisa saindo! Credo!
Coloquei a Luisa no peito e ela mamou na hora, ela não chorou, só fez uns barulhinhos... eu olhava em seus olhos e via que assim como eu, ela estava tentando se situar do que estava se passando. A enfermeira só jogou um paninho sobre a gente e colocou a toquinha dela, me explicando que eles perdem muito calor pela cabeça.
A medica falou: “- Ela esta bem, rosada e saudável, fica com ela o quanto quiser e eu a pego logo que você liberar, para medir e pesar, bem aqui nessa máquina ao lado.”
Gente! critiquei tanto a conduta deles aqui no Canadá, mas ao final, achei muito melhor que no Brasil! Tudo natural! Não sugaram o nariz dela, nem deram banho, nada disso, ela ficou ali comigo toda ensebadinha e a gente ficou se conhecendo. Dave do meu lado a acariciava também. Ela ficou quentinha rapidinho porque estávamos pele com pele.
Dave foi chamar Gabriel na sala de espera. Gabriel chegou e ficou muito emocionado com a irmãzinha, mas disse que só queria a pegar depois que ela tomasse banho.
Curti ela um monte, a médica sentadinha do meu lado esperando sem pressa.
Depois que a Luisa já estava calminha eu a entreguei para o Dave segurar um pouco. Ele a pegou super direitinho e ficou com o olhar mais terno que já vi na vida, depois ele a entregou pra médica.
A enfermeira veio me examinar para ver a quantidade de sangue que eu estava perdendo, Dave já não me via, estava vidrado na Luisa, que nem um cão de guarda. Enquanto isso, a médica a pesava e fazia todo o procedimento.
Dave nem se mexia, nem piscava! A cena muito bonita. Gabriel tirava fotos.
Entregaram-me ela de novo.
Alice, minha irmã, chegou pra assistir o parto! Hahahaha!
Bem, foi assim! Dormi no hospital porque eles nos examinam a cada 3 horas, por 24 horas... mas por não ter tido cortes nem anestesia, pariu acabou! Não tem mais sofrimento! Muito melhoooor!
Luisa nasceu dia 28 de dezembro, as 8:25 da manha, em apenas 2 horas e meia de parto, parto perfeito, sem lavagem, sem coco, sem cortes! Pesando 3.145 kg, com 50cm.
Linda, saudável, boazinha, fofa e tranquilinha!
Já estou em casa com ela, andando normalmente como se nada tivesse acontecido, nem sinto que acabei de ter filho, foi que nem cachorro mesmo! Ela é bem calminha, quase não chora, se eu colocar, ela fica no berçinho super na boa, mas nunca coloco! Ela me olha concentrada quando eu converso, e já nos segue com os olhinhos.
Estamos todos babando, Gabriel se sente meio paizinho, quer ajudar em tudo! Fica o tempo todo ao lado dela. Dave já aprendeu a trocar fralda, colocar para arrotar e tenta conversar com ela, mas fica a olhando mudo, contemplando e não sabe o que dizer. LINDOS!
Estamos em perfeita paz e harmonia, nunca fui tão feliz em toda minha vida!
Ela é linda de verdade! Não nasceu amassada, tem um nariz arrebitado e boca de coração, olhinhos levemente puxados e sobrancelhas pra cima, queixinho comprido com um furinho no meio... resumindo, é a cara do papai!
Beijos em todos, com carinho,
Juliana

23 de dezembro de 2010

Os velhos me dão medo

Os velhos me dao muito medo,
porque sempre dizem coisas de arrependimento
a respeito do tempo!
Do tempo que não viveram,
do tempo que não curtiram!
Deus do Céu, e dizem para sermos perfeitos!
Para sermos mais leves e menos preocupados com dinheiro!
Para vivermos intensamente o que eles não puderam!
Como o pai que cobra ao filho para ser campeao de tudo!
Dá-lhe pressão de fantasmas!
Exatamente!! Fantasmas do que não foram!
E pesam sobre nós como ídolos!
Velhos são mesmo fantasmas
E fantasmas me dão medo!
E fantasmas nos habitam!

Prometo que quando eu for velho, ...
Farei como ensinaram...
Bom... prometo...
Prometo assustar meus filhos!

19 de dezembro de 2010

Quanta neve...

Quem és tu que se traveste!
Pelas frestas do espelho, quem te espia?
Que pústulas, que pestes te esporulam?
Verrugas verdugas da pele!
Ver dura sua epiderme!
Quanto anuro, quanto verme
que te consome!
Quantos anfíbios te bebem!
Sao girinos que te geram!
Não te extingues... não és homem...
Quanta neve...
Quanta neve...

Meu terno

Me cansam os hommo sapiens
Me enjoam...
Visto meu terno
acerto o óculos,
Ao homem me assemelho
Semeio meu semen
Esporos que se esperam
Esperma que se esparrama
Que ao homem se assemelha!

Centauro

No outono apago as velas
O eterno cavalo que me carrega
De novo cobrirá a égua,
sem dono, sem trono, sem trégua...
Sem régua, sem regra, sem sono!
...Sem dona, nem doma, centauro,
Por séculos, bucéfalos agrários!
Colostro sem rosto, sem sela, sem rastro...
Esperam por meu esperma,
por todas as primaveras, eternas!
Invernas!

13 de dezembro de 2010

Estudando...

Veja as coisas como são em realidade, veja as coisas como são...
Se atente com os olhos calmos, tudo se revela...
As estações, e todas as primaveras...
Tem inverno e verão... Outro ano, nem outono se percebe!!
Nem tudo são espirais perfeitas, tem espaços vazios no castelo!



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Quem empurra a vontade é o estomago...
Quem fabrica os sonhos, é a máquina...
São as fadas, prisioneiras da mecânica!
Os desejos se acorrentam à verdade...

Quem decreta o sonho, é senhor da realidade...
Quem se deita com mistérios, por inteiro não se revela...
Quem ensina o pensamento é a matéria.
Quem muito tranqüilo se deita, tem a dispensa completa

Quem alimenta as fantasias, é o concreto do dia a dia
Quem domina seus impulsos é o instinto...
Meu menino, quanta bobagem te disseram no colégio!

Que vontade, que sonho, qual a fada te acompanha?
Que desejo, que mistério, pensamentos... que miséria
Meu menino, poesia é da morte, o sacrilégio!



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Estou triste meu amigo, estou triste e sei que passa!
Estou mesmo sem a graça do sorriso, sem a massa preparada!
Meu sentido já não sabe o que deseja,
Nem o que desaba
meu gracejo não dispara meia bala!
Estou sem jeito de palhaço, sem meu circo!
Sem amigo, vou dormindo nessa praça!
Não respiro, não espero...
Sem mistérios acabo o livro, encerro a peça
Estou mesmo desistindo meu cumpadre, estou atormentando os pombos!
Desanimado... nem é tédio, não é mágoa
Assim, como quem cruza os braços,
Ou assim como quem acusa a colombina...
Nem sou grande nem pequeno, e não caibo no quadrado!
A família se enquadra num retrato!
Estou triste meu amigo, e sei que é primavera...
E muitos se enamoram pelo pátio!
Meu castelo dissolvido no boteco!
Estou mesmo arrasado, fortalezas rebaixadas sem um tiro...
As bandeiras desbotadas, as fadas despedidas...
A ultima nota da musica invisível...
Insensível a epiderme se enruga
Tartaruga que se fecha ao ataque
Maquiagem que derrete... Eu desmaio!
Sou a sombra de alguém que baila, sou a jaula!
Estou mesmo em desconsolo, sem camisa pela neve!

Me entorpeço... me esqueço, essa é a minha vontade de derrota...
Quanta coisa se perde em absoluto!
Quanta coisa...


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Grande força de vontade demonstraste meu menino...
Que vergonha pra família, que falta de verdade!
Te ironizo com o desprezo dos mercados, te escravizo! sou o padre!
Não me importa o seu choro de covarde,
não me importa sua dor de perdedor, sua historia esta manchada!
Deves saber que vida é curta, e que sua passagem foi medíocre,
Nada que valha a pena, sua imagem é vazia, invisível à valores.
Tenho nojo impossível, não encontro mais palavras...




Preparo o ambiente, acendo as velas e os incensos,
Visto a roupa mais bela, meu traje mais elegante,
Arrumo a gravata e o chapéu, desço a mão em respeito,
Coloco a mesa, os talheres, o pano!

Meia luz para meias verdades, o vinho na temperatura do frio!
A multidão silencia no pátio,
Tudo transpira, eu acalmo o coração palpitado!
Respiro em busca de inspiração, medito!
Buda me dita uns versos, escuto outros provérbios!

Meus ombros trafegam na névoa, assim que eu me distraio!
Outro gole no gás amargo, outra grande idéia morrendo sem rastro!
Meu cigarro se apaga sem memória...
Desfaleço, cambaleio, não sou destro!
Me tropeço sem amigos, não me meço...
Quem merece toda a água de meu pranto?
Quem merece o meu lenço ensopado?
Quem merece minha chaga, minha mágoa, minha história!?
Quem merece minha ausência dolorida, minha dúvida abstrata, a vontade absurda!
Quem espera que eu seque suas lágrimas? Quem impede?
Quem me pede um abraço?

Quantos rostos cabem em meu álbum, quantas pernas caminharam em meus versos!

Quanta trégua conquistada sem a guerra, quanta chuva acumulada, quanta neve!

Tempestades, sem estrelas... não me espere!

O tempo anoitece em meus olhos, acendo a fogueira, cadentes os astros me atropelam!


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Quem bate à porta?
Quem?
Atendo com alguma ressalva, com algum pressentimento que hoje a felicidade vem me buscar! Quem?
Quem do outro lado me espia!? Pelo vidro cristalino alguém me espreita! Tiro a roup, desço o pano, cai a chave pela fenda!
Me desvenda!
Quem?
Quem atende o telefone, outra voz além da minha!
Minha tenda!
Vem descendo na garrafa de meus dias, vem trazendo desbotadas melancolias!
Eu abri a melancia quando à água me benzia!
Assim, sacerdote Malaquias vem à porta!


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1 de junho de 2010

Vou a guerra meus amigos, se preparem!
Vou erguer minha bandeira colorida!
Escrever minha mensagem perseguida!
Vou a guerra meus amigos! Me exercito!

Declaro inimigos todos que maltrataram
A flor que nasceu do trabalho

Disciplina de guerreiro, o mundo em brasa!
Tenho um Deus particular dentro do peito!
Vou correr ate sangrar meus tornozelos!
Vou armar minha fragata de morteiros!

Não tem trégua, bando de covardes!
Não tem paz que se construa no conflito!
Tem a bomba instalada na memória!
Tem a canga tonelada na corcunda!

Tem a cova esperando meu lamento
Tem a cobra, me sugando o leite
Tem o dente que trincado se amontoa
A guerra que não quero, mas me chama

Expulsaram o animal do paraíso
Talhado a machado, a guerra me machuca!
Devolvo cada fenda, ofenderam as oferendas!
Devorada cada orelha, arrebentaram meus meninos!

Não esperem que eu venha todinho travestido de bom moço!
Não, não me amem!
Não me venham com a paz dos cemitérios!
Não esperem que eu me enterre por vontade própria!

A vida lateja em meu sêmen
Vou a guerra meus amigos, buscar o que me é de direito...
Ao mundo que me engole,
Deixo a pele parecer macia, viro verme.
A língua que me amassa o verbo me persegue.

Un hueco largo y profundo me consome
Cai assim meu sonho delirante, embebido
Em álcool, vazando pela areia de meus dedos

Sou a gosma, amorfa e sem vontade
Aprendi pedir perdão pelos pecados
Nos porões me arrasto sem segredo
Digerindo o ferro das algemas, cadeados.

Apagaram a luz, esqueceram meus desejos
Aguardo a vontade do império, obedeço
Em meus olhos apenas a cegueira catarata
Em meu peito, a tristeza da gaiola, um afresco!

Um ar fresco!

26 de abril de 2010

Trabalhando e aprendendo

Meu trabalho na região Leste de MG junto aos camponeses e camponesas... Fizemos essa viagem para Iconha no Espírito Santo, passamos 2 dias trabalhando e aprendendo numa comunidade de imigrantes Italiano e depois fomos para a Feira Agroecológica em Vila Velha... Aproveitamos para levar os camponeses para conhecer a praia, porque muitos ainda não conheciam o mar...
Um trabalho muito legal e gratificante...

18 de abril de 2010

O alvo ta claro...

Volto a deixar aqui meus vestígios...
Deixo pegadas que nada persegue...
E nem percebem as ondas que faço...
Não repreendem nem meus litígios...
Meus rios correm mansos por seus destinos...

Desapercebido, sou a sombra que saboreia os restos...
Como a sereia, que sem partitura se perde na feira...
Os estivadores e os marinheiros não a desejam...
Como o vampiro que vende veículos no varejo...

Ou como ciclopes que em Enciclopédias se multiplicam...
Ainda tenho amigos que não voltaram: os denomino:




Venham sim, hoje é dia de abrir as porteiras...
Vamos assim, inundar de sementes os campos improdutivos...
Irradiar esse sol que trazemos peito, que temos ativo!
Nossa granada, que vem de uma era repleta de grãos,
Como a espiga granada... rellena!

Venham famílias, mulheres, ancianos, ocupem...
Assaltem aos céus dos Deuses desesperados...
Ergam bandeiras, aqui há um vazio...
Descubram cada espaço estéril...

Desvendem os mistérios da força dos latifúndios...
Enraizados estão na raiva de um povo!
Os fazendeiros são portugueses ainda...
Declaro aqui, meu ódio aos maçons e aos lions club...
De antigos costumes imundos, ainda estupram mucambas...
Ainda se educam no sangue da classe operária!

Venham, destruam essa ordem perfeita...
A porteira de ouro da classe burguesa...
Declaro aqui minha ira fecunda...
E peço forças para esmagar cada injustiça...
Não vou pedir paz, quero a guerra, quero a chama de cada batalha...
Quero que ardam em cada fogueira aqueles que nos queimaram a vida inteira...
Olho por olho... dente por dente...
Fui educado com um colar de bombas...
Não peço que me compreendam...

Desejo o sangue, beber cada hemoglobina de meus inimigos...
Os cristãos durante séculos nos machucaram...
Sangraram cada virgindade de nossas meninas!!!
Queriam ver se um negro tem alma...
Queriam saber se um índio reclama...
Quero pintar com minhas fezes, cada museu de imagem...
Quero morte aos patrões... na pré história da humanidade eu lhes enterro
Quero que Exu, me domine... que Ogum abençoe cada bala de meu fuzil
Quero que morram de câncer os filhos de quem nos encharca de veneno todos um dia um pouco!
Quero ver os olhos cegos, entorpecidos, o cérebro louco de meus inimigos...
Eu declaro guerra a quem finge me amar...
Tenho e pertenço a uma CLASSE, que morram todos os pós-modernos...
Pego Mao Tse Tung e me protejo...
Que me persigam, vou foragido pelas fronteiras...
Alguém tem que chamar as coisas pelo nome certo!
Sou voluntário...
Me apedrejem então, quem for o mais forte...
Não tenho medo!
Sei que a massa um dia atropela seus verdugos...
Ah e nesse dia, seremos todos dias de festa

Temos logo que erguer nossos exércitos. Unifica-los...
Preparar para a batalha que já é a cada dia... e perdemos sempre um pouco...
Acumulando rebeldia!

Quero pegar na metralha... atirar com vontade sobre cada guarda soturno, encontrar os chefes escondidos, covardes!

Quero desfilar minha entrega na praça...
Pintar-me no sangue de cada moscardo!
Enfiar pelas tripas de cada papa, meu sabre enferrujado, para machucar todo por dentro...
E sorrir de ódio como um homem que enlouquece em êxtase eterno!
Quero, quero manchar minha água, pintar de vermelho essa carne murcha!

Me julguem, me estapeiem, me prendam...
Firmem o atestado de minha falência...
Quero explodir o palácio... detonar cada muro que nos impede o passo!

Não quero... vou!!
Anuncio em letras escarlates...
O cão que late...

Nenhum treinamento, apenas ódio que acumula nas massas... como fermento...
Nenhuma receita, apenas instinto que se multiplica... como insetos!
Nenhum traço de areia, apenas água e cimento, absoluto concreto!

Meu poema explode, se materializa a ameaça!
Em seus aposentos formulam minha mordaça!
Não me atrapalha... nem me confunde... apenas infunde a mira de minha palavra direta!

O alvo ta claro...

Tudo que escrevi quando ainda estava em rascunho...

Tudo que eu escrevi quando ainda estava em rascunho, mas como não tenho ainda nenhum compromisso com o mundo das publicações acabadas, deixo apenas que as bombas explodam sem nenhum sentido!

E ninguém paga o preço de nada... então vou aguando essas flores murchas até que apareça um fruto maduro, retorcido, resistido aos incêndios de qualquer intempérie...
Vou deixando assim, qualquer tipo de rastro... Sem nenhum conforto, como os rabiscos que já não nascem dos teclados... mas são dedos urgentes, desesperados...
Deixo aqui mais uma passagem, um portal aberto para essa alma que ninguém percebe...
Qualquer indigente de espermas mortos!





Eu venho daquele antigo império,
em que os poetas traziam no peito a bomba que explodia orgasmo!
Sou amigo do mago Gepetto, assim como Merlin me ensinava...
Zaratustra me convidava para chás em sua caverna...
Tenho laços na família dos Centauros...
e as Ciganas apaixonadas, erguiam as saias em minha passagem...
Tenho a barba crescida dos velhos profetas...
Em meu ombro se espalham as lástimas de Iscariotes...

Tenho uma flor para cada guerreiro... cortesãs em veludo eu avassalei...
Aprendi o truque sinistro da eternidade... me embebi deste drink desinteressado...
Mas a fome é destino certo, para diverti-la vendo a força de meu trabalho...
A fadiga dos indigentes me é indigesta...

Hoje, para distrair o tempo, me aposentei num mosteiro...
E um velho circo aluga meus passes perfeitos...
As famílias se divertem com estatuetas que falam...
Sou eu que as controlo colocando-as no colo... como os ventríloquos!

As partículas do tempo são capturadas em meu puçá feiticeiro...
Minhas aurículas se divertem ao som da fogueira...

Entrego os pontos... desisto... já não esforço o poder dos músculos, e desfaleço!!!
Confesso que o tempo já não possibilita o meu sucesso...
E essas máscaras desconfortáveis já não disfarçam o meu fracasso...
Já não insisto... Anuncio sem zelo meu desespero...
Que em seu reflexo denomina-se de suicídio!
O fundo do poço me é agradável, é meu estábulo!

Venho da espécie dos derrotados...

Ergo a taça... derramo no átrio o sêmen desgasto!
Vou me arrastando pelos botecos...
Sou o medo das donzelas que se assustam e trancam as velhas vidraças...
Venho com o orvalho, ou com a noite que te embala....
O pesadelo que acalma as raízes podridas...
Sou o vestígio do sangue símio que lhe persegue...
A derrota que embota as vestes vencidas... e lhe surjo às trevas...
Que lhe sugere, que suja...

Vou me embolando aos ébrios do cemitério...
até que surja no horizonte uma estranha coruja...
Até que seja atendido o desejo...
do velho gênio que apodrece numa garrafa miúda!

E desfaleço, a memória imunda que me esquece!
Me embriago, por trazer por debaixo do manto esse macaco escondido...
Por ser perseguido pelo feromônio
Solto os gorilas... Deixo que estraçalhem as muralhas perfeitas...

Sou aquele mesmo que foi tragado pelo fracasso!
Deitei na neve, afoguei os navios fantasmas...
Metralhei as fadas já desgastadas que agora dormem num puteiro de estrada!
Os unicórnios, cansados, se desfalecem no estábulo, amamentando as gordas muchachas dos capitalistas...
Já os duendes, esses safados são individualistas como um porco capado!
Eu os detesto!

Fervo a água, desmembro a flor... esculpo o presépio!
Arrebento a corda que me prende a essa fornalha...
Não sou de ferro, e tinha uma pergunta que me assaltava sempre que a onda invadia a praia...
Até quando vou fugir desse naufrágio inevitável!?
Já não fujo... já não disfarço. Sou a bomba explodida, sou o fracasso...
Sou a esfinge desvendada... sou o mistério interrompido... a freira estuprada...
Venho da espécie dos humilhados, dos feiticeiros aposentados em circos gaiatos que vagam pelo interior...
Faço sim, uma flor crescer em su palma... ergo um pequeno jardim nos olhos dos desvalidos.... mas entre migalhas reina meu totem desprevenido!
E já me assaltam as últimas bestas do apocalipse...

Sou a réstia dos elementos, o fim do pensamento dos druidas...
Sou a peça desnecessária para o bom andamento dos negócios...
Sou o ócio em figura... sou a formosura desnecessária...
Por isso tropeço nas últimas letras...
Por isso não peço que me respeitem...
Sou o dicionário do analfabeto... o predileto dos dinossauros...
Minha mágica combina-se aos truques do velho Merlin... aposentado!

Não vu fugir de meu fracasso, ate quando a derrota será um fantasma...
Não me persegue mais... eu lhe abraço...
Venha a mim o reino dos derrotados...
Envelheço meus membros num velho boteco...
Peço cachaça, e envileço com manchas sebentas em meu encalço!
Já não me esforço, desisto do mundo como pelo avesso...
Atravesso a fronteira do tempo e me desfaço!
Trago as partículas do espaço, assim como dos elementos,
minha matéria é a mesma que te origina...
Não me abomina as raízes do vento!
Tenho a memória gasta de um porto cabello!
Tenho os joelhos tortos como garrincha!
Tenho labirintite!
Venho do reino dos minotauros... decapitado do céfalo profundo!
Venho trazendo os temperos adultos...
Não tenho amigos, estão aposentados num labirinto...
Nem familiares... estão pelos bares ou em absinto”!
Não tenho prestígio... apenas o vírus que me invade,,,
A gripe que me succiona





Cafajeste...

Arrumo com brio meu bigode retorcido, faço a barba e me visto de terno listrado...
Deito colônia em meu peito desnudo... e vou para a rua, caçar por donzelas enriquecidas...
Lanço o perfume de meu hormônio, tenho a pele lisa de tanto desejo...
Tomo um banho, e me masturbo, espalho o esperma na epiderme já ressequida...
Deixo o cheio da vida penetrar pelos poros... assim eu caminho pelas calçadas...
Olhares me perseguem, eu levito!
Minha navalha percorre os detalhes do decote de seu vestido...
Cheiro a orvalho... Solto o cavalo no pasto, que persegue a fêmea no cio!
Deixo limpo meu olhar sincero, desejo apenas o seu orgasmo!
A ele eu venero, sei bem o que quero...

Contemplo seu templo... Esvazio meus bolsos de oferendas...
Tiro a roupa sem peso, como dizia, levito... sou apenas sincero!
Vou caminhando a seu encontro, vou deslizando meus dedos...
Beijo o disfarce sem desconforto,
Mordo de leve seu metatarso, de leve...

Sou velho bárbaro, minha barba escondida ainda me entrega...
Sim, tenho tártaro... sou feito de barro ainda sem sopro divino!
Feto prematuro!

3 de abril de 2010

as lágrimas corretas...

Hoje, que venham para o brinde, todos os poetas... e glória aos guerrilheiros...
Dançam na cabana os marinheiros... e sobre as obras derradeiras, pisam os centauros...
Que venham para a festa os literários, todos os tipos da raça e os lixeiros, mas que tragam as bazucas azeitadas...
Que venham as musas com cachorros perdigueiros...
Mas nenhuma mágica vai se desdobrar no pátio...
Esparramo no terreno, apenas as obras perfeitas... e mal acabadas, as lágrimas corretas...
Hoje venham para a valsa, os vampiros... a noite é de festa... e temos a seresta como mágoa a ser desfeita...
Desfruta então as músicas dos sinos... E rasga as telas de arabesto...
Deságua a eterna mágica do leito... e faz que as cicatrizes se desmanchem em delírio...
Pega o copo, enche sua taça deste vinho...
Seco! Eu decido...
Hoje, sei que finda a última batalha, e o jovem Werther anuncia o suicídio!
Wilhelm Meister se descobre apaixonado, ou como títere ainda se acredita divertido...
Vamos, vamos colher os limões galegos... azedos como o suor de diabos... as escamas da medusa me dão medo...
Balsa... com V mudo me assaltam os passageiros...
Nada tenho que me traga um romance mosqueteiro... capa & espada... nada tenho que me arraste ao mundo inteiro...
Dom Quixote se envelhece num barraco, num barranco escondo os lábios desperfeitos...
Desperta a música no pátio... eu, assim, descabelado, vou sonhando sem um sol que me alimente...
Nessa noite, temos brasas nos sapatos... e trazer uma cantiga que embale os homens bêbados...
Todos os heróis já vomitaram...
Agora, resta ver a verdade direito... com tato, apalpar as poucas medalhas no peito...
Como cegos, acordar sem as trombetas... nada tem de eterno essas palavras no caderno...
Nada tem de milagre... meu vinho já tem gosto de vinagre...
O Pão embolorado, se desbota sem Van Gogh pincelado... e tem o gosto antigo da fumaça de ervas proibidas...
Eu volto meu olhar para o lado mais calmo das estátuas... e sei que as patas do centauro ainda cavalgam ligeiras pelo asfalto...
Senta-te a meu lado, estende-me a mão... peça-me um abraço...
Vou na velocidade da lama, que é lenta, mas engana...
Vou em direção diferente... do que antes eu tinha em mente...
Meu sêmen se acumula latente... sem disfarce...
As sementes das quaresmas, estraçalham as vidraças...
Nada mente... apenas se floreia o caminho dessa vida sem jardim...
Venham mesmo, todos os poetas... venham a mim...
Minha lavoura vos espera! Minha terra...
Mas nenhuma mágica, nenhum milagre, nem nesta e nem em todas as noites futuras...
Marx nos alerta... Que fujam todos os poetas... para os campos de produção sem fim... que finjam ao menos, trabalhar sobre a matéria...
Marx nos liberta... de ser sempre a mesma histeria... Que fujam para a história os anacletas
Nada tem fim... nem a mão que me embala, nem nossa grande muralha... nem a marcha de Mao timoneiro... Nada tem fim... Nem a dor antiga que não cicatriza direito...
Nada tem fim... e nem começo...

A PERSISTÊNCIA DO CARATÊ

A todos os que desejo bem...
Aqui no meu Mosteiro Simonésia, a solidão e a disciplina, me fazem destilar algumas lembranças...
Não tendo muitas opções para distrais os fantasmas, acabo por mergulhar dentro do poço de meu passado, e vejo quanta coisa boa...
Escrevi agorinha essa pequena passagem REAL de minha vida, que claro que os familiares que estavam metidos no meio da Serra dos Carajás, irão se lembrar, não com todos os detalhes e intensidade que eu me lembro...
Só queria dividir com vcs, que são especiais para mim... E pedir uma opinião, e correções, porque escrevi de uma vez só, sem reler nem nada!!!

Beijos e carinho a todos!


A PERSISTÊNCIA DO CARATÊ

Era numa serra no Pará, uma cidade erguida sobre puro minério de ferro... e eu com meus 9 ou 10 anos, havia chegado ali por causa de meu paizinho, que fora contratado pela CVRD para construir uma eclusa, e a cidade seria demolida em poucos anos pra frente...

Uma cidade inteira pré-moldada, casas de madeira, pintadas de azul e branco... bairros separados por peões e engenheiros, e o bairro também dos chefes...

Escola para todos, padaria que a gente comprava o ticket do pão e do leite para toda a semana e deixava os tickets numa cesta em frente de casa e na manha seguinte, magicamente os pães e leite estavam lá nos esperando para serem colhidos...

Cidade cercada inteira de alambrado, para que as onças e outros animais que atemorizam os homens, não pudessem machucar suas crianças...

No meio da Selva Amazônica, quase sem estradas, e muitas vezes o transporte era o barco ou o helicoptero, ou ainda os pequenos aviões bimotores... Não me lembro ao certo de tudo...

Sei que havia um clube, um clube também dividido por classes, inclusive me lembro que uma desas cantoras que rebola bastante, ia se apresentar na cidade... e haviam 2 espetáculos, com horários diferentes... Mais cedo era o espetaculo para a classe A, de engenheiros e chefes... a cantora só cantou mesmo, com algumas reboladas discretas e jogando charme para ver se arrumava algum programa mais tarde, mas chefes, nessas horas, são discretos... sempre acompanhados de suas esposas, apenas aplaudiram e desviaram os olhares...

Mais tarde, era a hora dos peões, e dizem os comentários, que até a roupa ela tirou, ainda se apresentaram mais 6 bailarinas, minha imaginação na época delirava com o show para os peões... espiões... Tudo era meio artificial, mas meus sonhos, eram explicitos... Desejei ser da classe dos peões para sempre!

Sei que numa manha de calor intenso e ar paralisado, apareceu na cidade, alguns cartazes que divulgavam que um grande mestre do caratê iria começar as aulas para os interessados, que uma turma teria idade entre 8 e 15 anos e treinaria em diversos horários diferentes...

Era alguma iniciativa do conselho diretor da cidade para ocupar a energia explosiva da molecada... Claro que essa iniciativa também deu-se graças a aparição desse tipo forasteiro que havia chegado na mesma semana e se apresentado ao conselho como professor de caraté, mostrou diplomas e a carteirinha da associação de caratẽ do Brasil, se é que isso existe...

No mesmo sentido de todos os interesses, minha mãe, também animou a me matricular, já que minha chateação em casa era grande e minhas irmãs já não suportavam mais serem golpeadas pelo meu poder de ultraman, ou de Pirata do Espaço...

O Forasteiro, os conselheiros, minha mãe e minhas irmãs, todos adoraram a idéia, fazia todo sentido, estava na lógica óbvia da razão e da sensatez... e incrivelmente, todas as mães, e todas as irmãs, e todos os moleques da cidade tiveram a mesma razão... se matricularam nas aulas, o professor haveria de trabalhar com mais de 20 turmas... pelo menos 8 horas por dia...

Mamãe comprou o quimono que uma costureira local havia improvisado para a molecada inteira da cidade, alguns tiveram a sorte de terem mães costureiras e os lençóis mais grossos fizeram o papel de tecido especial...

O início das aulas era coisa ansiosa, eu estava empolgado, nervoso, na época, haviam acabado de lançar o filme do Karate Kid, e eu me imaginava o próprio Daniel San... a espera do Sr. Miagui...Então, entre as horas que não passavam, eu dormia e acordava com o meu kimono... só não ia para a escola com ele, porque era tudo muito organizado, e o CETEP Carajás não permitia que entrássemos sem uniformes...

Ah, que ansiedade!!!

Chegou o grande dia... segunda feira, as 6 da tarde... minha turma tinham uns 20 moleques, e dois deles eu conhecia... era o Andrémendes (que eu insistia que o nome dele era esse e minha mãe sempre falava, não Tequinho, o nome dele é André, e o sobrenome é Mendes, inclusive o nome da irmã dele é Andrezza Mendes..., bom não importa, importa que a professora chamava ele de Andremendes, e eu também o chamava assim, eu e todos os outros moleques...) Esqueci de dizer que a tal da Andrezza era a minha paixão secreta, mas isso fica para outra história!

As aulas iriam começar e meu kimono já estava com uma inhaca tremenda, bela arma contra os adversários do Pirata do Espaço...

Eu era todo esportistazinho, lembro de uma lista de presentes de natal que eu havia pedido para o Papai Noel uma bola de futebol, uma de voley, uma de basquete, tenis, frescobol, ping pong, bola de capotão, futebol de salão, bola de boliche, minha lista eram todas de bolas... bom, mas eu era todo esportistazinho como eu ia dizendo... E no Caraté, me imaginava já o grande campeão, porque eu tinha disciplina e vontade, as mesmas coisas que o Daniel San tinha também...

Eu já delirava com o kimono e com o cheiro de suor de um tatami meio podre que haviam arrumado... mas eu gostava, e acho que ainda gosto daquele cheiro... Então chega o professor... Carlos, mas que delirio... eu não imaginava figura mais exótica... em minha cabeça, seria um professor japonês, obviamente, mais velho, forte... seco...

Mas que figura o tal do professor Carlos, ele parecia o Casagrande... sim, eu tomei um susto, não o Casagrande antigo, mas o atual comentarista de esporte, barrigudo, cara oleosa, cabelo enroladinho e sempre molhado, igual fios de ovos, igual o do Luis Caldas... Ai ai ai... ele parecia aqueles caras hippies antigos que em vez de maconha, bebiam muito mais pinga... Ele era desengonçado, barrigudo e flácido mesmo... mas enfim, era meu professor, e a ele eu deveria obedecer sob todas as circunstâncias... criei um respeito por tudo que ele dizia, e ele começou a aula dizendo que a gente deveria tirar notas boas na escola... mas que raios!!! O que a escola tinha a ver com aquilo??? Enfim, não seria grande problema, porque minhas notas eram as melhores da sala, as minhas e as do Fúlvio!

Ah, começamos enfim, milhares de polichinelos, correr em volta da sala, abdominais, ele mandava, fazia umas 5 repetições do exercício e nos deixava mais de 15 minutos no mesmo exercício. Depois nos colocava para fazer alguns movimentos mágicos...

Acreditem, eu estava adorando e em êxtase profundo, minhas irmãs e minha mãe, perceberam a mudança... eu chegava cansado porque depois das aulas eu e a molecada da turma, ficávamos brincando de ninjas, com as camisas amarradas na cabeça e nossos chacos de cabo de vassoura e sisal. Nossas brincadeiras eram muito mais instrutivas que a própria aula do Mestre Carlos.

Enfim.... Misteriosamente, na segunda semana de aula, apareceram novos cartazes na cidade, agora divulgando um campeonato de caratê entre todos os alunos matriculados, e que deveríamos fazer nossas inscrições na mesma semana. Minha mãe se assustou e pensou que não era normal um campeonato na primeira semana de aulas... Mas já que todos haviam aceitado, não havia porque se preocupar... eu nem pensei no assunto, sei que minha mãe não poderia estar correta, óbvio!

O Coração palpitava, o ginásio da cidade estava apinhado de gente, na sexta a noite iniciaria... e o clube estava cheio como nunca havia visto, estava mais cheio que o show da cantora que rebolava muito... lembro que era alguma chacrete...

Minha mãe me deu um remédio para tirar a tensão, sei que eu não dormi da quinta para a sexta, pensando nos meus ensinamentos e nas medalhas que eu ganharia... minha familia me aclamaria como o campeão da casa...

Explodia mesmo... e chegava a hora da luta, a primeira luta, vi meu nome escrito num papel colado na parede, Marcelo Campello Ramos x Juvenal Pereira Albuquerque (18:25h – Sexta), uma longa lista de nomes numa longa parede do ginásio, eram várias lutas simultâneas, e os juízes eram os professores de educação física da escola, os cabos do exército, etc... foram laçados de última hora para fazerem juízo das lutas.

Nada me importava e tudo transcorria na maior da normalidade das coisas... Eu tenso, nervoso, comendo todas as unhas... Minha maezinha estava orgulhosa, ao menos parecia, mas acho que por dentro ela pensava: “- Ah, meu pequenininho, tão fortinho, tão dedicado, a poucos dias estava aqui nos meus braços e agora está pronto para iniciar suas batalhas sozinho!” E meu pai, ainda meio cansado do trabalho de toda a semana, chegou meio atrasado, mas a tempo de ver as primeiras lutas da molecada e eu junto deles, meus pais me davam conselhos, dizendo que o mais importante não era ganhar, e sim competir, mas eu tava querendo destruir quem passasse pela minha frente...

Chamaram meu nome no microfone...

Eu fui par ao tatami sozinho, no tatami de letra “R”, cheguei antes de meu oponente, e imaginava que ele estava perdido, chamaram por ele novamente, e eu explodia de ansiedade, em cima da faixa que me deixaram estacionado, eu todo durinho, ereto, olhando para o vazio que aguardava o moleque Juvenal...

Pela terceira vez o chamaram, e agora apareceu um cara esquisito que se postou em cima da outra linha, um cara sem kimono, que ficou ali parado... e iniciaram os preparativos para a luta... Caramba, vi meus pais protestarem na arquibancada... era um adolescente de 15 anos que iria lutar comigo, grande, corpo de homem, da família dos peões... monstruoso, eu não raciocinei... mas pensei: “ - Se é ele o meu adversário, que seja, a luta vai ser limpa e honesta e vou dar o máximo de mim, afinal Davi derrotou Golias, ou foi o contrário!? Confundo os nomes dos personagens, mas enfim, sei que o pequeno derrotou o gigante...” E comigo seria o mesmo... eu era o pequeno Daniel San, meus dentes trincavam apertados!

Plim!!! Soa a sineta...

Meio segundo se passa, e eu estou estatelado no chão, tomei um chute no meio da boca... um chute terrivel, que desmoronou meus sentidos... Plaf... só ouvi o barulho oco de minha bochecha colando nos dentes e espremendo para fora o pouco ar que havia em mim... Meu dente ficou meio mole... e demorei para entender o que havia passado...

Sei que ao meu lado, meus pais já se ajoelhavam, e me acudiam... o ginásio deu um pulo, e todos fizeram “Uh!”...

Acordei, fiquei grogue ainda, me levaram para o banheiro, açucar na gengiva, para parar o sangramento... meu queixo doía...

Mas eu me soltei da atenção cuidadosa de todos, e falei com calma que eu voltaria para o Tatami e continuaria a luta, mas todos diziam que eu já havia perdido... mas não podia ser, a luta não acabara ainda, eu tava ali inteiro, consciente... E meus pais protestando que aquilo era um absurdo! Que deveria ter divisões por faixa etária ou peso, para os combatentes, que não poderia ter agressão física assim! Enfim, os motivos não me convenceram, e o campeonato estava apenas começando... e eu deveria voltar par ao tatami antes que meu tempo se esgotasse...

Os juízes não acreditaram quando me viram com a boca cheia de açucar... em cima da linha branca pintada no tatami verde... e eu encarando sério, com os olhos vermelhos o gigantesco adversário...

Não perguntei nada, apenas me parei ali na linha aguardando o recomeço, como um condenado num paredão que encara seus algozes... aguardava o reinicio sem pensar em nada...

Eles se reuniram, e decidiram por me dar mais uma chance, já que eu mostrava tanta coragem e vontade, meus pais gritavam para que tudo fosse paralisado, mas eu não ouvia, e no fundo, minha mãe, queria sim, que eu voltasse e arrebentasse a cara daquele Juvenal... Me disse baixinho para eu chutar o saco dele...

Ah, eu tinha minhas armas secretas...

Plim... soa novamente a sineta...

Catapau!!! Esplatam!!! Pow!!! Krash!!!!! Porrada pura e absoluta!!!!!!!!!!

O gigantesco Juvenal, me esmigalhou inteiro... fui atropelado mais uma vez, sem chance nenhuma... Eu, meninote, quase um frango na mão do urso... fui detonado, humilhado, derrotado, trucidado...

Apanhei como um cavalo manco... Sangrava mesmo, mas não sentia nenhuma dor, minha adrenalina subiu a um milhão... eu era puro ódio de minha fraqueza... eu odiava com toda a intensidade o limite de minha força... Mas não conseguia me levantar mais... alguma coisa se partira além do meu orgulho de menino esportistazinho e admirado na família...

Fui rebocado pelos juízes para um canto do ginásio e meus pais ficaram ali, me cuidando, e minhas irmãs, ao mesmo tempo que riam de minha situação deplorável, sentiam, um leve sabor de vingança de me ver apanhando tanto... mas no fundo sei que elas queriam arrebentar a cara do tal do Juvenal, queriam tacar pedras e paus naquele urso que havia me atropelado... sei disso! Eu só conseguia articular algumas palavras: “- Me deixem voltar para o tatami, pelamordedeus, eu quero terminar a luta!!!” mas dessa vez os juízes e meus pais, foram mais sensatos que minha vontade

Fui para casa, e não falei mais nada durante todo o fim de semana, não quis sair. Me tranquei no quarto... eu e minha humilhação... Meu tornozelo estava enfaixado, mas eu não pensava sobre isso, apenas mancava e percebia que algumas partes roxas em mim, doíam mais que as partes normais...

No domingo a noite, minha família me arrancou do quarto para assistir as finais do campeonato desastrado, e a cerimonia de premiações, disseram que eu tinha que ir porque todos os inscritos teriam que participar da cerimônia, já que o espírito esportista deve reconhecer os legítimos vencedores como toda a história tem dito...

Como qualquer criança, eu mesmo já estava meio enjoado do carma de ter que ficar destilando ódio, e no domingo a notie, eu já estava feliz de novo, e fui ao clube para assistir as finais e a premiação, e haveria de ir com o meu kimono, óbviamente...

Terminadas as disputas, era a hora da premiação, chamaram vários conhecidos meus, chamavam o moleque pelo nome e davam a medalha para ele lá na frente... Foram distribuidas umas 8 medalhas de ouro, depois mais umas 8 medalhas de prata... e já estavam chamando o oitavo moleque para receber a medalha de bronze... Eu não sabia o que eram essas distinções de medalhas e minha mãe ia me explicando... que eram todas metais nobres, apenas de cores diferentes... a oitava medalha havia sido entregue, e naquela hora, meu maior desejo era ser um daqueles meninos que estavam lá na frente com seus kimoninhos e suas vitórias espetaculares... Todas as medalinhas de fita verde e amarela no pescoço... Que beleza, que heróico...

Então, ouvi o microfone gritar e me tirar do sonho: “ - Marcelo Campello Ramos... Medalha de bronze, por demonstrar determinação e persistência!”

Silêncio em mim... delírio... seria possível!!!

Até agora escrevendo, me sobem lágrimas aos olhos... eu estava sendo chamado e não acreditava... não era possível, eu estava sendo chamado e minha mãe dizia: “ - Vai lá meu menininho, vai lá que você também é um grande campeão!”

Sério!?? Eu perguntava e tentava entender... Mas já estava lá no palco, com minha medalha no peito e sendo parabenizado pelos juízes que não percebiam minha emoção gingante.

Ao final, em êxtase, minha família me parabenizou e fomos comer sanduiche na rua para comemorar... Eu era um herói, mas ainda não sabia o que significava Bronze e muito menos a palavra persistência...

Mais uma vez, minha mãe me explicou direitinho... e minhas irmãs pediam para tocar naquela medalha... e ridicularizavam o meu grande feito heróico... Até hoje me lembro da musiquinha que elas criaram para minha medálha:

“- A Persistência do Caratê! Pererereréu, pererereréu... foi pro beleléu!!!


Eu era um herói... e acho que minha persistência até hoje tem um cheiro de bronze...


Nunca mais ouvimos falar do professor Carlos... sei que o campeonato, acabou me mostrando várias belezas que carrego até hoje!