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3 de abril de 2010

A PERSISTÊNCIA DO CARATÊ

A todos os que desejo bem...
Aqui no meu Mosteiro Simonésia, a solidão e a disciplina, me fazem destilar algumas lembranças...
Não tendo muitas opções para distrais os fantasmas, acabo por mergulhar dentro do poço de meu passado, e vejo quanta coisa boa...
Escrevi agorinha essa pequena passagem REAL de minha vida, que claro que os familiares que estavam metidos no meio da Serra dos Carajás, irão se lembrar, não com todos os detalhes e intensidade que eu me lembro...
Só queria dividir com vcs, que são especiais para mim... E pedir uma opinião, e correções, porque escrevi de uma vez só, sem reler nem nada!!!

Beijos e carinho a todos!


A PERSISTÊNCIA DO CARATÊ

Era numa serra no Pará, uma cidade erguida sobre puro minério de ferro... e eu com meus 9 ou 10 anos, havia chegado ali por causa de meu paizinho, que fora contratado pela CVRD para construir uma eclusa, e a cidade seria demolida em poucos anos pra frente...

Uma cidade inteira pré-moldada, casas de madeira, pintadas de azul e branco... bairros separados por peões e engenheiros, e o bairro também dos chefes...

Escola para todos, padaria que a gente comprava o ticket do pão e do leite para toda a semana e deixava os tickets numa cesta em frente de casa e na manha seguinte, magicamente os pães e leite estavam lá nos esperando para serem colhidos...

Cidade cercada inteira de alambrado, para que as onças e outros animais que atemorizam os homens, não pudessem machucar suas crianças...

No meio da Selva Amazônica, quase sem estradas, e muitas vezes o transporte era o barco ou o helicoptero, ou ainda os pequenos aviões bimotores... Não me lembro ao certo de tudo...

Sei que havia um clube, um clube também dividido por classes, inclusive me lembro que uma desas cantoras que rebola bastante, ia se apresentar na cidade... e haviam 2 espetáculos, com horários diferentes... Mais cedo era o espetaculo para a classe A, de engenheiros e chefes... a cantora só cantou mesmo, com algumas reboladas discretas e jogando charme para ver se arrumava algum programa mais tarde, mas chefes, nessas horas, são discretos... sempre acompanhados de suas esposas, apenas aplaudiram e desviaram os olhares...

Mais tarde, era a hora dos peões, e dizem os comentários, que até a roupa ela tirou, ainda se apresentaram mais 6 bailarinas, minha imaginação na época delirava com o show para os peões... espiões... Tudo era meio artificial, mas meus sonhos, eram explicitos... Desejei ser da classe dos peões para sempre!

Sei que numa manha de calor intenso e ar paralisado, apareceu na cidade, alguns cartazes que divulgavam que um grande mestre do caratê iria começar as aulas para os interessados, que uma turma teria idade entre 8 e 15 anos e treinaria em diversos horários diferentes...

Era alguma iniciativa do conselho diretor da cidade para ocupar a energia explosiva da molecada... Claro que essa iniciativa também deu-se graças a aparição desse tipo forasteiro que havia chegado na mesma semana e se apresentado ao conselho como professor de caraté, mostrou diplomas e a carteirinha da associação de caratẽ do Brasil, se é que isso existe...

No mesmo sentido de todos os interesses, minha mãe, também animou a me matricular, já que minha chateação em casa era grande e minhas irmãs já não suportavam mais serem golpeadas pelo meu poder de ultraman, ou de Pirata do Espaço...

O Forasteiro, os conselheiros, minha mãe e minhas irmãs, todos adoraram a idéia, fazia todo sentido, estava na lógica óbvia da razão e da sensatez... e incrivelmente, todas as mães, e todas as irmãs, e todos os moleques da cidade tiveram a mesma razão... se matricularam nas aulas, o professor haveria de trabalhar com mais de 20 turmas... pelo menos 8 horas por dia...

Mamãe comprou o quimono que uma costureira local havia improvisado para a molecada inteira da cidade, alguns tiveram a sorte de terem mães costureiras e os lençóis mais grossos fizeram o papel de tecido especial...

O início das aulas era coisa ansiosa, eu estava empolgado, nervoso, na época, haviam acabado de lançar o filme do Karate Kid, e eu me imaginava o próprio Daniel San... a espera do Sr. Miagui...Então, entre as horas que não passavam, eu dormia e acordava com o meu kimono... só não ia para a escola com ele, porque era tudo muito organizado, e o CETEP Carajás não permitia que entrássemos sem uniformes...

Ah, que ansiedade!!!

Chegou o grande dia... segunda feira, as 6 da tarde... minha turma tinham uns 20 moleques, e dois deles eu conhecia... era o Andrémendes (que eu insistia que o nome dele era esse e minha mãe sempre falava, não Tequinho, o nome dele é André, e o sobrenome é Mendes, inclusive o nome da irmã dele é Andrezza Mendes..., bom não importa, importa que a professora chamava ele de Andremendes, e eu também o chamava assim, eu e todos os outros moleques...) Esqueci de dizer que a tal da Andrezza era a minha paixão secreta, mas isso fica para outra história!

As aulas iriam começar e meu kimono já estava com uma inhaca tremenda, bela arma contra os adversários do Pirata do Espaço...

Eu era todo esportistazinho, lembro de uma lista de presentes de natal que eu havia pedido para o Papai Noel uma bola de futebol, uma de voley, uma de basquete, tenis, frescobol, ping pong, bola de capotão, futebol de salão, bola de boliche, minha lista eram todas de bolas... bom, mas eu era todo esportistazinho como eu ia dizendo... E no Caraté, me imaginava já o grande campeão, porque eu tinha disciplina e vontade, as mesmas coisas que o Daniel San tinha também...

Eu já delirava com o kimono e com o cheiro de suor de um tatami meio podre que haviam arrumado... mas eu gostava, e acho que ainda gosto daquele cheiro... Então chega o professor... Carlos, mas que delirio... eu não imaginava figura mais exótica... em minha cabeça, seria um professor japonês, obviamente, mais velho, forte... seco...

Mas que figura o tal do professor Carlos, ele parecia o Casagrande... sim, eu tomei um susto, não o Casagrande antigo, mas o atual comentarista de esporte, barrigudo, cara oleosa, cabelo enroladinho e sempre molhado, igual fios de ovos, igual o do Luis Caldas... Ai ai ai... ele parecia aqueles caras hippies antigos que em vez de maconha, bebiam muito mais pinga... Ele era desengonçado, barrigudo e flácido mesmo... mas enfim, era meu professor, e a ele eu deveria obedecer sob todas as circunstâncias... criei um respeito por tudo que ele dizia, e ele começou a aula dizendo que a gente deveria tirar notas boas na escola... mas que raios!!! O que a escola tinha a ver com aquilo??? Enfim, não seria grande problema, porque minhas notas eram as melhores da sala, as minhas e as do Fúlvio!

Ah, começamos enfim, milhares de polichinelos, correr em volta da sala, abdominais, ele mandava, fazia umas 5 repetições do exercício e nos deixava mais de 15 minutos no mesmo exercício. Depois nos colocava para fazer alguns movimentos mágicos...

Acreditem, eu estava adorando e em êxtase profundo, minhas irmãs e minha mãe, perceberam a mudança... eu chegava cansado porque depois das aulas eu e a molecada da turma, ficávamos brincando de ninjas, com as camisas amarradas na cabeça e nossos chacos de cabo de vassoura e sisal. Nossas brincadeiras eram muito mais instrutivas que a própria aula do Mestre Carlos.

Enfim.... Misteriosamente, na segunda semana de aula, apareceram novos cartazes na cidade, agora divulgando um campeonato de caratê entre todos os alunos matriculados, e que deveríamos fazer nossas inscrições na mesma semana. Minha mãe se assustou e pensou que não era normal um campeonato na primeira semana de aulas... Mas já que todos haviam aceitado, não havia porque se preocupar... eu nem pensei no assunto, sei que minha mãe não poderia estar correta, óbvio!

O Coração palpitava, o ginásio da cidade estava apinhado de gente, na sexta a noite iniciaria... e o clube estava cheio como nunca havia visto, estava mais cheio que o show da cantora que rebolava muito... lembro que era alguma chacrete...

Minha mãe me deu um remédio para tirar a tensão, sei que eu não dormi da quinta para a sexta, pensando nos meus ensinamentos e nas medalhas que eu ganharia... minha familia me aclamaria como o campeão da casa...

Explodia mesmo... e chegava a hora da luta, a primeira luta, vi meu nome escrito num papel colado na parede, Marcelo Campello Ramos x Juvenal Pereira Albuquerque (18:25h – Sexta), uma longa lista de nomes numa longa parede do ginásio, eram várias lutas simultâneas, e os juízes eram os professores de educação física da escola, os cabos do exército, etc... foram laçados de última hora para fazerem juízo das lutas.

Nada me importava e tudo transcorria na maior da normalidade das coisas... Eu tenso, nervoso, comendo todas as unhas... Minha maezinha estava orgulhosa, ao menos parecia, mas acho que por dentro ela pensava: “- Ah, meu pequenininho, tão fortinho, tão dedicado, a poucos dias estava aqui nos meus braços e agora está pronto para iniciar suas batalhas sozinho!” E meu pai, ainda meio cansado do trabalho de toda a semana, chegou meio atrasado, mas a tempo de ver as primeiras lutas da molecada e eu junto deles, meus pais me davam conselhos, dizendo que o mais importante não era ganhar, e sim competir, mas eu tava querendo destruir quem passasse pela minha frente...

Chamaram meu nome no microfone...

Eu fui par ao tatami sozinho, no tatami de letra “R”, cheguei antes de meu oponente, e imaginava que ele estava perdido, chamaram por ele novamente, e eu explodia de ansiedade, em cima da faixa que me deixaram estacionado, eu todo durinho, ereto, olhando para o vazio que aguardava o moleque Juvenal...

Pela terceira vez o chamaram, e agora apareceu um cara esquisito que se postou em cima da outra linha, um cara sem kimono, que ficou ali parado... e iniciaram os preparativos para a luta... Caramba, vi meus pais protestarem na arquibancada... era um adolescente de 15 anos que iria lutar comigo, grande, corpo de homem, da família dos peões... monstruoso, eu não raciocinei... mas pensei: “ - Se é ele o meu adversário, que seja, a luta vai ser limpa e honesta e vou dar o máximo de mim, afinal Davi derrotou Golias, ou foi o contrário!? Confundo os nomes dos personagens, mas enfim, sei que o pequeno derrotou o gigante...” E comigo seria o mesmo... eu era o pequeno Daniel San, meus dentes trincavam apertados!

Plim!!! Soa a sineta...

Meio segundo se passa, e eu estou estatelado no chão, tomei um chute no meio da boca... um chute terrivel, que desmoronou meus sentidos... Plaf... só ouvi o barulho oco de minha bochecha colando nos dentes e espremendo para fora o pouco ar que havia em mim... Meu dente ficou meio mole... e demorei para entender o que havia passado...

Sei que ao meu lado, meus pais já se ajoelhavam, e me acudiam... o ginásio deu um pulo, e todos fizeram “Uh!”...

Acordei, fiquei grogue ainda, me levaram para o banheiro, açucar na gengiva, para parar o sangramento... meu queixo doía...

Mas eu me soltei da atenção cuidadosa de todos, e falei com calma que eu voltaria para o Tatami e continuaria a luta, mas todos diziam que eu já havia perdido... mas não podia ser, a luta não acabara ainda, eu tava ali inteiro, consciente... E meus pais protestando que aquilo era um absurdo! Que deveria ter divisões por faixa etária ou peso, para os combatentes, que não poderia ter agressão física assim! Enfim, os motivos não me convenceram, e o campeonato estava apenas começando... e eu deveria voltar par ao tatami antes que meu tempo se esgotasse...

Os juízes não acreditaram quando me viram com a boca cheia de açucar... em cima da linha branca pintada no tatami verde... e eu encarando sério, com os olhos vermelhos o gigantesco adversário...

Não perguntei nada, apenas me parei ali na linha aguardando o recomeço, como um condenado num paredão que encara seus algozes... aguardava o reinicio sem pensar em nada...

Eles se reuniram, e decidiram por me dar mais uma chance, já que eu mostrava tanta coragem e vontade, meus pais gritavam para que tudo fosse paralisado, mas eu não ouvia, e no fundo, minha mãe, queria sim, que eu voltasse e arrebentasse a cara daquele Juvenal... Me disse baixinho para eu chutar o saco dele...

Ah, eu tinha minhas armas secretas...

Plim... soa novamente a sineta...

Catapau!!! Esplatam!!! Pow!!! Krash!!!!! Porrada pura e absoluta!!!!!!!!!!

O gigantesco Juvenal, me esmigalhou inteiro... fui atropelado mais uma vez, sem chance nenhuma... Eu, meninote, quase um frango na mão do urso... fui detonado, humilhado, derrotado, trucidado...

Apanhei como um cavalo manco... Sangrava mesmo, mas não sentia nenhuma dor, minha adrenalina subiu a um milhão... eu era puro ódio de minha fraqueza... eu odiava com toda a intensidade o limite de minha força... Mas não conseguia me levantar mais... alguma coisa se partira além do meu orgulho de menino esportistazinho e admirado na família...

Fui rebocado pelos juízes para um canto do ginásio e meus pais ficaram ali, me cuidando, e minhas irmãs, ao mesmo tempo que riam de minha situação deplorável, sentiam, um leve sabor de vingança de me ver apanhando tanto... mas no fundo sei que elas queriam arrebentar a cara do tal do Juvenal, queriam tacar pedras e paus naquele urso que havia me atropelado... sei disso! Eu só conseguia articular algumas palavras: “- Me deixem voltar para o tatami, pelamordedeus, eu quero terminar a luta!!!” mas dessa vez os juízes e meus pais, foram mais sensatos que minha vontade

Fui para casa, e não falei mais nada durante todo o fim de semana, não quis sair. Me tranquei no quarto... eu e minha humilhação... Meu tornozelo estava enfaixado, mas eu não pensava sobre isso, apenas mancava e percebia que algumas partes roxas em mim, doíam mais que as partes normais...

No domingo a noite, minha família me arrancou do quarto para assistir as finais do campeonato desastrado, e a cerimonia de premiações, disseram que eu tinha que ir porque todos os inscritos teriam que participar da cerimônia, já que o espírito esportista deve reconhecer os legítimos vencedores como toda a história tem dito...

Como qualquer criança, eu mesmo já estava meio enjoado do carma de ter que ficar destilando ódio, e no domingo a notie, eu já estava feliz de novo, e fui ao clube para assistir as finais e a premiação, e haveria de ir com o meu kimono, óbviamente...

Terminadas as disputas, era a hora da premiação, chamaram vários conhecidos meus, chamavam o moleque pelo nome e davam a medalha para ele lá na frente... Foram distribuidas umas 8 medalhas de ouro, depois mais umas 8 medalhas de prata... e já estavam chamando o oitavo moleque para receber a medalha de bronze... Eu não sabia o que eram essas distinções de medalhas e minha mãe ia me explicando... que eram todas metais nobres, apenas de cores diferentes... a oitava medalha havia sido entregue, e naquela hora, meu maior desejo era ser um daqueles meninos que estavam lá na frente com seus kimoninhos e suas vitórias espetaculares... Todas as medalinhas de fita verde e amarela no pescoço... Que beleza, que heróico...

Então, ouvi o microfone gritar e me tirar do sonho: “ - Marcelo Campello Ramos... Medalha de bronze, por demonstrar determinação e persistência!”

Silêncio em mim... delírio... seria possível!!!

Até agora escrevendo, me sobem lágrimas aos olhos... eu estava sendo chamado e não acreditava... não era possível, eu estava sendo chamado e minha mãe dizia: “ - Vai lá meu menininho, vai lá que você também é um grande campeão!”

Sério!?? Eu perguntava e tentava entender... Mas já estava lá no palco, com minha medalha no peito e sendo parabenizado pelos juízes que não percebiam minha emoção gingante.

Ao final, em êxtase, minha família me parabenizou e fomos comer sanduiche na rua para comemorar... Eu era um herói, mas ainda não sabia o que significava Bronze e muito menos a palavra persistência...

Mais uma vez, minha mãe me explicou direitinho... e minhas irmãs pediam para tocar naquela medalha... e ridicularizavam o meu grande feito heróico... Até hoje me lembro da musiquinha que elas criaram para minha medálha:

“- A Persistência do Caratê! Pererereréu, pererereréu... foi pro beleléu!!!


Eu era um herói... e acho que minha persistência até hoje tem um cheiro de bronze...


Nunca mais ouvimos falar do professor Carlos... sei que o campeonato, acabou me mostrando várias belezas que carrego até hoje!