Poemas no e-mail

2 de maio de 2009

Acertam-me um balaço!

Arranquem-me! Um por um que seja, talvez com uma forte marretada, uma pedrada, mas por favor, arranquem-me todos os dentes... Definitivamente que caiam todos... Dóem-me absurda e absolutamente. Dor que abate todos os pensamentos, toda capacidade de raciocínio, atordoa... Sem pensamentos, com apenas a idéia fixa de um alívio, uma redenção!!!
Arranquem!
Carcomidos pelas bactérias comungadas em cáries, perfurações, canais e cavernas... gengivas expelindo pus! Engulo cada golfada de pústulas que explodiam... Minha boca apodrecida... já Minha língua esfarinhada!
Arranquem-me da boca minha própria lingua pestilenta...

Amo-os, amo-os até as últimas lágrimas, amo-os e revolto-me com minha terrível dor, amo-os e os arrebento... com meu mais profundo respeito, como parte integrante de minha essência, amo-os, são meus dentes. Mas triturem-os, quebrem-me todos, arranhem os esmaltes com os alicates. que pena, ama-os tanto, sei que necessito... mas adeus! A dor é insuportável, contorço-me, parece que meus nervos são penteados pelas rachaduras dos dentes que restam, como moluscos presos a uma concha que se desestrutura!

Amo-os, mas já não posso continuar com eles! Amo-os, mas me despeço com tristeza e muito alívio, apesar da dor imediata das marteladas sucessivas!

Que faço eu meu amor? Que faço, se ao entregar corpo, alma, pele, pensamentos, sonhos, queimando todos os navios, os mais minúsculos barcos, tive que partir... que faço... segui as convocações e chamados de nossa querida guerrilha, de nossos heróis, amados... embrutecidos mas ternos... entreguei assim, a própria sorte e enfim a vida... Melhor dizer: Esse malditos filhos da puta imperialistas, esses malditos diabos, eles arrancaram-me a vida...

Deixar para trás os cuidados comigo mesmo, impossível manter os hábitos de higiene e moral em meio ao tiroteio, pelas armas e pela falta total de condições. Que faço? que faço!? As dores, as agonias enormes da entrega, partir, deixar-te, que faço? Pergunto-me, desabo. Sem opções, só resistir nos resta... Sem outra via...

Só o combater nos eleva a categoria maior do ser humano! a luta para a liberdade! Porém animalizados pelas bestas inimigas, vorazes de toda nossa alma!

Entrego-me com o orgulho do combatente, com a força redobrada, mesmo sem as condições para isso...

Cortei os cabelos, tornei-me bruto, áspero...

Arrebento a cabeça de um inimigo, destroço-lhe com alegria os ossos de sua cabeça... Uma rajada de metralhadora me redime, Abro meu enorme sorriso banguela, e acerto mais três.
Alegria de os ver destroçados, numa ode a paz absoluta dos infernos...
mas meu amor, eu um dia reencontrarei seus cabelos cheirosos...
Um dia te abraçarei... e não tenho idéia de que me receberas, não tenho idéia, pois tenho certo que sou outro homem, mesmo que mantenha meu amor por ti, certo é que ele habitará para sempre debaixo de uma rocha gigante que caiu um cima de todos os sentimentos que carrego...

Acertam-me um balaço!