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2 de maio de 2009

As Cavernas

As cavernas nos atraem, sim, profundas, nos seduzem, desconhecidas, densas, misteriosas... e sempre acreditamos que em seu interior, exista um tesouro escondido, um mundo encantado, alguma civilização esquecida...
As cavernas nos atraem, como os horizontes tão largos... como os barcos...

Existe uma caverna aqui embaixo... entro nela sem medo... sigo até uma parte do caminho... sinto paz, sinto paz e um cheiro amargo de musgo... deito nas pedras frias, sem lanterna, me acomodo por sobre as pedras... Ainda existe luz do outro lado.

Me aproximo da parte mais escura, em direção às trevas...
Vou tateando a laje, as paredes gordas, enchendo minhas mãos de umidade e limo...
Mas não vejo... tateio...

Luz alguma, escuridão espessa, grossa, meu olhar se aperta, nada filtra...
O silencio persegue o eco de meus passos, e minha respiração é um único decibel que existe, e o som de algumas gotas que caem, sem ser vista... uma orquestra, uma sinfonia...


Não há como saber de todas as câmaras, nem das menores galerias. Se afundando ela vai sem fim, seguindo num labirinto, que percorro abandonado de luz... e de mim. Não vejo as passagens possíveis, não percebo opções de corredores aos milhares... se existe alguma bifurcação? Não sei, sigo apenas na linha torta das portas que nem sei se abro...

Se existem todas as tais galerias, sei que estou num lugar mais amplo e aberto quando o eco de minha respiração demora mais para voltar aos meus ouvidos... percebo o funcionamento dos radares dos submarinos...

São caminhos únicos... Não! Não existe luz alguma mesmo, submerjo... e meus olhos abrem-se dilatados... e os faróis apagados, e nem um único fósforo...

A caverna se prolonga.. eu por ela... me aprofundo...

Nada é raso...

Poças pelo piso... Alagam meus pés que se enrugam, como caramujos... Contudo, me sinto bem por aqui! Uma paz lateral, no lado esquerdo do cérebro... Imperturbável...

Descanso meus pensamentos, e sigo erguendo os braços para não estalar a cabeça nalguma ponta de pedra... cheiros, sons, tato, frio, água, cegueira...

A caverna vai me pondo num transe, vai me hipnotizando os instintos... E prossigo nos passos, não descanso... bato palmas... verto sangue... creio que quase mênstruo...

Não encontro sinal de luz, como aquelas cavernas de filmes em que um raio azul penetra por uma fenda depositando-se numa lagoa infinita, cheia de moedas e ao fundo uma cruz...

Não encontro essa fenda, não encontro esse feixe... nada que reluz, os tesouros, se existem, não existem para um cego...

Lama entre os dedos... e aquele cheiro de fezes antigas de morcego, como o cheiro de galpões abandonados... Aquela poeira úmida se misturando aos lábios, e a boca seca de tanto cuspir essa matéria arenosa e fedida que vai percolando à meus pelos... como pérolas.

Sinto que caminho curvo, com a coluna torta... ao contrário de quem se ergue, diminuo meu tamanho, evito esbarros... Corcunda a caminhar estreito...

Estou sujo... como envolvido numa placenta... Mas não me sinto desconfortável... sento-me na escuridão... respiro fundo... aspiro todo o ar que posso, o que possuo é esse senso, enferrujado por falta de uso, esse senso de direção confuso no meio do labirinto...

Não me importa se saio daqui com vida... penso ter encontrado um bom lugar para devolver meu barro... e ser sorvido pelo calcário... Sigo como numa pista de dança, bailo... e meus passos rodopiam pelo salão... lúcidos!

Um grilo pula em minha perna... ou um percevejo, um besouro talvez, tem uma carapaça dura... Um cheiro de erva antiga possui a virgindade de minhas narinas... E todos se misturam de fato...

Sinto-me puro talvez, como num útero...

Chupo uma pedra para enganar a sede... (o beijo amigo, é a véspera do escarro) e depois mastigo aquele resto de calcário duro que quebra nos dentes da boca imunda...

Minhas canelas se inundam... e nos pelos de minha perna, embaraçam talvez, sanguessugas... estou nu, desprotegido da estúpida intimidade burguesa... na cabeça de meu órgão crescem verrugas...

Penso que o correto, é que deveria estar assustado, frágil, talvez amedrontado... mas sei que estou calmo como um cavalo num pasto, ou uma tartaruga... Percebo a matéria da qual sou feito... é mais dura que meu pensamento...

Espinhos me furam os olhos, ou talvez sejam pregos, mas não me importa, creio que já nasci cego...

Sigo...

Que caminho retorcido colocaram a minha frente, quantas galerias gigantes me perseguem... Chupo outra pedra... e não tenho relógio!

Olho para dentro de meu instinto... sinto as rugas de minha mão... sinto os rasgos que me fizeram...

A caverna me traga como um cigarro... um trago de fumaça dança na consciência... percorro-lhe a laringe obtusa... e o pulmão bizarro me expele...

O grilo-besouro continua no meu calço... agora, já é meu amigo!

Nem um vento eu sinto, que talvez me servisse de mapa, nem barbante de Teseu me orienta... nem uma estrela impossível, nem astrolábio. Minha imaginação esbarra num minotauro... Que logo abandono, por falta de provas concretas...

A temperatura constante de uma caverna é sempre a média da temperatura anual da região, ad eternum! Já não sinto frio...

O minotauro, se existe, só existe para os cegos...

Uma fumaça branca se percebe, uma névoa se esparrama... como espermas...
Um bafo quente jorra em meu rosto... como um orgasmo...
Volto meus olhos para o que seria uma esperança... ou uma árvore...

Saio mais inteiro, passo meu corpo esguio por uma fresta de raíz estreita...
O Sol gigantesco a me chamar pelo nome... talvez lo sea el final del reto...
Como sair de uma vulva, ou o parto antecipado que expulsa o feto...
A luz também me cega...
E agora, do outro lado, com a coluna ereta, projeto minha cabeça erguida para o horizonte, avante, como ser levado pelo vento... e meu grito se dilata pelas colinas...

E... Uma nuvem se formou, estaciona em sobra como tempestade que chega mansa...
A noite se aproxima, a noite tão velha me deita...
Meus cabelos ao travesseiro... Depois de tocar e arranhar a matéria da qual sou feito... Sei que já não sou o mesmo, heróico, fecho os olhos pequeninos... e atrás da pálpebra fina, volto para a mesma caverna!

Os tesouros, se existem, são feitos dessa mesma matéria!