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2 de maio de 2009

Quando digo amor, no que pensas?

Quando eu voltei...

Me descobriram, sim os guardiões das portas dos mortos descobriram minha ausência. Me retirei por 147 anos e para que eles não desconfiassem de minha fuga, eu mesmo tive que crer que tinha 25 anos, e nunca mais acendi a luz vermelha de meu coração. Morto, porém com 25 anos a lançar minha fertilidade em colos apaixonados, porém morto, essencialmente.
Mas hoje eles me descobriram, e com sua infantaria de legiões sorridentes e monstruosas me interceptaram em cima de uma figueira centenária.
Claro que tentei me lançar no espaço, tentei voar com minhas recordações de instruções de vôo, mas eles me perseguiram pelos telhados.
Eu que vivi como um rei, hoje me encontro em fuga, como alguém que rouba, como um ladrão... Minhas amantes se descabelaram e reconhecem em meu dominador o homem que lhes trás a triste notícia de minha morte prematura tardia.
Claro, a partir do momento em que os habitantes desse reino me descobrem, torna-se impossível enganar-lhes, fugir, não há caminho, não há beco que eles não vasculhem, entram nas consciências, entram no cognitivo, rasgam-te as entranhas e te buscam, no puedes vacilar con su llama roja. Con su sendero luminoso. Te quieren. Y son lindos, son cantantes, rápidos, apasionantes...
Me vuelvo al cementério, me vuelvo, tengo miedo, claro, voy a ser massacrado por mis parejas... Huindo, que feo. Pero ya me acostubro porque conosco todas las molestias de mis compañeros, que me invidian.
Bem, retorno, e não tenho vontade de abrir meus olhos.
Penso ainda como é que eles me descobriram? Não fui eu que acendi a chama, não foi eu quem deixou o rastro luminoso. Não, se algo se passou, creio que me entregaram, creio que a parte mais cansada de meu espírito disse toda a verdade e confessou o meu desejo de fuga...
Mas agora chego ao portão dos mortos e pulo (me empurram) o muro para dentro do cemitério, me aproximo de minha tumba, ma enterram e falam para que eu não mire pelos dois primeiros dias para os lados, pois os que ficaram estão com muita raiva, que na verdade são eu mesmo antecipados.
Creio que tudo não passou de um mal entendido, e abro os olhos no primeiro Sábado, ou Domingo, não importa, e sei que por mais feios que me pareçam, não tenho medo, definitivamente não tenho, é como uma peça de teatro infantil, onde os gatos realmente falam, e os cachorros dançam esquizofrênicos.
Volto ao meu lar, durmo e jogo fora aquela minha juventude roubada, foi só um sonho, agora tento me convencer novamente que tenho os 147 anos determinados, sabendo que um dia, um dia de sol, me será dado, clareando meus raios deliciosos, meus movimentos saborosos, minha alma bêbada e alegre, que te deseja de novo, sendo inevitável que te entregues... Pois bêbado estais. Basta que me busques em seus delírios! Pronto, basta, contaminado estais novamente.
Desejo-te, e vou dormir por mais alguns séculos moribundos... Preparando-te a cama, observando-te, cuidando-te... Te espero do outro lado do muro, sei que trocaremos de pares. Quando digo amor, no que pensas?

Lavras, 15/03/2003