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2 de maio de 2009

É assim que bebo minha água

Basta, Perfeito...
Nada! Essa é a representação exata de meu reflexo
Exato, esse é o passado de meu retrato...
Defeito, esse é o suporte do leito de meu rio...
Sorrio, e calmo, me aproximo, também dou minhas dentadas...
Os mapas foram rasgados, queimados...
Estrangeiros, não tenho paciência!
Essa é a palavra...
E tentando florear meus sentimentos, acabo por esconder-me num jardim embolorado...
Tentando arrancar as máscaras, fiz movimentos desincronizados...
E te parti o peito...
E te perdi no mar mais absoluto, o mar do esquecimento
A maré vai enchendo e o sol caindo em meus espíritos velhos...

Sim, esse espírito que agora me responde, e me diz com a sabedoria de um bode, o que devo fazer...
“- Possuído de mim estais, a ignorância é o fardo que carregas, perdoo-te...
mas deixe-me adentrar em sua essência, e te direi as palavras mágicas, ao pé do ouvido, dando toda a dor possível, desafiarás as estrelas e pensando ser possível alcançá-las, quedarás louco, incompreensivel, fedido...”
Mas, bem, penetra-me, respira devagar e profundo, beijo do amargo, do pé de pelos grossos, do animal, do anormal, do aleijão... do intelectual enclausurado e nú em seus conceitos, do pássaro ferido e baleado...
Bem, mas é assim que bebo minha água, e me alimento desses urubus...
Me alimento desse sangue derretido, dessa massa amorfa de meu cerebelo...
Me sustento com ar grosso e a poeira seca....
Ah! Quantas juventudes...
Quanta sede e água me falta...
Não tenho as mãos dos profetas, e os defino como santos, como seres elementares... Inexistentes.
A mágica está trancada na dispensa, a intolerância me atormenta, crescem os pelos em mim, os chifres estão apontando pelo cotovelo, a testa são escamas suadas, as mãos e os dedos se alongando...

Já me sinto em casa, já me sinto dono, rei, dentro de seu império.
Fiz-te de barro para poder quebrá-lo, para poder fundí-lo.
Não, não posso dizer que foram os incensos, nem as mirras, também não culpo as ervas, nem os alcalóides entorpecentes...
Ë a sombra do desconhecido, do incontrolável, da violência, da voz calma e serena, que me convence a deleitar-me, apedrejar ao irmão, cuspir na mulher que me ama, é o animal que vive em mim, é a besta...

Me fez de barro, meus pensamentos são núvens negras, tempestades...
Sou o cachorro deitado e doente, a velha desnutrida e solitária, o dominó dos aposentados, e tudo é tristeza, a vida vai escorrendo, e nada acontece, a vida me surpreende e nada acontece...

Um pássaro voando na tempestade, o ninho derrubado pelo vento, os filhotes mortos, esmagados pelo carro.... a imagem do desespero, percebo as aflições da cena, não contraio nem um músculo, meu espírito despreza... a imagem se sustenta...

Um menino manhoso, birrento, uma mão o estapeando, uma mão sem paciência, com o salário atrasado, um pai bêbado, torcendo pro flamengo, uma prostituta no sinal. Eu passando com meus sapatos sujos, faço parte desse quadro, meu espírito sem piedade, frio para sobreviver no inferno, escrevo minhas sensações, deliro, chuto a porta, bato no filho, a violência se transmite, espanco meus sonhos, encho a cara... tranco a cara, amarguro meus sorrisos, não me venha falar de amor, não me beija, não me queira bem, não me queira.

Claro que sou culpado, tragado pelo cigarro que me consome, ... ,
Eu e meus fantasmas, o inimigo me espreita, e hoje ele venceu, as cobras me picaram, adormeci em seu ninho, pisoteei seus ovos, as cobras me amaram.